Diarreia
Fezes mais moles ou líquidas e evacuações mais frequentes que o habitual. Na maioria das vezes é aguda e passageira, mas quando persiste por semanas passa a exigir investigação.
Diarreia é o aumento da frequência das evacuações com fezes mais moles ou líquidas, geralmente três ou mais vezes ao dia. A forma aguda costuma ser infecciosa e se resolve sozinha em poucos dias; o principal cuidado é a hidratação. Quando dura mais de duas a quatro semanas (diarreia crônica), ou vem com sangue, febre alta ou perda de peso, precisa de avaliação médica.
O que é diarreia
Diarreia é o aumento da frequência e da fluidez das evacuações — na prática, fezes mais moles ou líquidas, geralmente três ou mais vezes por dia, e um volume maior do que o habitual para aquela pessoa. Mais do que um número fixo, o que define é a mudança em relação ao padrão de cada um.
Vale separar diarreia de outras queixas que às vezes se confundem com ela. Evacuar com urgência, ter a sensação de esvaziamento incompleto ou eliminar pequenas quantidades frequentes nem sempre é diarreia de verdade; e fezes formadas, ainda que frequentes, não entram na definição.
Aguda x crônica: a divisão que importa
A pergunta mais útil diante de uma diarreia é há quanto tempo ela dura, porque isso muda completamente as causas prováveis.
- Diarreia aguda dura até cerca de duas semanas. A imensa maioria é infecciosa — vírus, bactérias ou toxinas de alimentos contaminados (a clássica “intoxicação alimentar”) — e se resolve sozinha. O foco do cuidado é repor líquidos e sais, não necessariamente “cortar” a diarreia.
- Diarreia crônica dura mais de duas a quatro semanas. Aqui a lista muda: predominam causas não infecciosas, como síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares, doença celíaca, doença inflamatória intestinal, efeitos de medicamentos e alterações da microbiota. É a diarreia crônica que costuma exigir investigação mais detalhada.
Causas intestinais frequentes
Entre as causas digestivas de diarreia, especialmente na forma persistente, destacam-se:
- Síndrome do intestino irritável (SII), subtipo com diarreia. Cursa com dor abdominal relacionada à evacuação, urgência e fezes amolecidas, sem sinais de inflamação nos exames. É uma das causas mais comuns de diarreia crônica leve.
- Intolerância à lactose e outras má absorções de carboidratos, em que o açúcar não digerido puxa água para o intestino e é fermentado, gerando diarreia, gases e cólica horas após o consumo.
- SIBO (supercrescimento bacteriano do intestino delgado). O excesso de bactérias pode interferir na absorção e provocar diarreia e distensão, embora a relação com os sintomas ainda seja objeto de debate.
- Disbiose intestinal, com alteração da microbiota que pode surgir, por exemplo, após o uso de antibióticos e influenciar o trânsito.
Causas que não devem ser esquecidas, sobretudo diante de sinais de alerta, incluem doença inflamatória intestinal (retocolite ulcerativa e doença de Crohn), doença celíaca e infecções persistentes. Vários medicamentos também causam diarreia, o que torna a revisão do que a pessoa usa parte importante da avaliação.
Quando é sinal de alerta
Boa parte das diarreias é autolimitada, mas alguns cenários pedem avaliação sem demora:
- Sangue nas fezes ou fezes muito escuras
- Febre alta
- Dor abdominal intensa
- Sinais de desidratação: sede intensa, boca seca, urina escura e escassa, tontura ao levantar
- Diarreia que dura mais de duas a quatro semanas
- Perda de peso associada
- Diarreia que acorda a pessoa durante o sono (sugere causa orgânica, não funcional)
Idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças crônicas ou imunidade comprometida devem procurar ajuda mais cedo, porque desidratam e se complicam mais rápido.
O que costuma ser investigado
Na diarreia aguda sem sinais de alerta, em geral não há necessidade de exames: o cuidado é hidratação e observação. Já na diarreia persistente ou com sinais de alarme, a avaliação inclui exames de sangue (hemograma, marcadores de inflamação, eletrólitos, sorologia para doença celíaca) e exames de fezes.
Entre os exames de fezes, a calprotectina fecal tem papel de destaque: níveis baixos apontam para causa funcional, enquanto níveis elevados sugerem inflamação e reforçam a necessidade de investigar doença inflamatória intestinal. Coproculturas e pesquisa de parasitas ajudam a afastar causas infecciosas. A colonoscopia é indicada diante de sinais de alerta, diarreia crônica sem causa definida ou para rastreamento conforme a idade. Quando há suspeita de má absorção de açúcares, o teste respiratório pode entrar, sempre com a ressalva de sua acurácia limitada.
O que dizem as evidências
Na diarreia aguda infecciosa, as evidências são sólidas em um ponto simples: reidratação — de preferência com soro de reidratação oral em casos de maior perda — é o pilar do tratamento, e a maioria dos quadros se resolve sem antibióticos.
Na diarreia crônica de origem funcional, a dieta com baixo teor de FODMAPs reduz sintomas em parte das pessoas com SII, como demonstrou o ensaio de Halmos et al. (2014), embora a resposta seja individual e a dieta deva ser conduzida com orientação. A relação entre diarreia funcional e SIBO segue incerta: metanálises como a de Shah et al. (2020) encontram supercrescimento bacteriano com mais frequência em pessoas sintomáticas, mas a heterogeneidade dos estudos e as limitações dos testes impedem conclusões firmes. Ou seja, a diarreia crônica costuma exigir uma investigação ordenada, e o tratamento acompanha a causa encontrada, não uma fórmula única.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre diarreia aguda e crônica?
A divisão é pelo tempo. Diarreia aguda dura até cerca de duas semanas e quase sempre é infecciosa (vírus, bactérias ou toxinas alimentares), resolvendo-se sozinha. Diarreia crônica dura mais de duas a quatro semanas e tem lista de causas diferente, incluindo síndrome do intestino irritável, intolerâncias, doença inflamatória intestinal e doença celíaca. É a duração que mais muda a conduta.
Quando tomar remédio para parar a diarreia?
Antidiarreicos como a loperamida podem aliviar sintomas em diarreias não complicadas, mas devem ser evitados quando há febre alta ou sangue nas fezes, porque nesses casos podem prolongar uma infecção. O ponto mais importante na diarreia aguda não é 'parar' a qualquer custo, e sim repor líquidos e sais. Na dúvida, vale orientação médica ou farmacêutica.
Diarreia pode ser intolerância à lactose?
Pode. Quando a diarreia aparece de forma repetida algumas horas depois de leite e derivados, junto de gases e cólica, a intolerância à lactose é uma hipótese razoável. Ela não explica toda diarreia crônica, mas é uma causa comum e relativamente simples de testar reduzindo lactose e observando a resposta, de preferência com orientação.