Calprotectina fecal
Exame de fezes que mede uma proteína liberada por células de defesa quando há inflamação no intestino. É muito usado para diferenciar doença inflamatória intestinal de quadros funcionais como a síndrome do intestino irritável.
A calprotectina fecal é uma proteína presente nos neutrófilos, células de defesa que migram para a parede do intestino quando há inflamação. Medi-la nas fezes indica se existe inflamação intestinal em curso. É especialmente útil para distinguir causas orgânicas, como a doença inflamatória intestinal, de causas funcionais, como a síndrome do intestino irritável, evitando exames mais invasivos quando o resultado é baixo.
- Objetivo
- Detectar inflamação na parede do intestino e ajudar a diferenciar doença inflamatória intestinal (causa orgânica) de distúrbios funcionais como a síndrome do intestino irritável, além de acompanhar a atividade de doenças já diagnosticadas.
- Preparo
- Não exige jejum nem dieta especial. Basta coletar uma pequena amostra de fezes no recipiente fornecido pelo laboratório. Evitar realizar durante episódios de sangramento menstrual e, se possível, longe do uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), que podem elevar o resultado.
- Sensibilidade
- Alta para inflamação intestinal: em geral acima de ~90% para doença inflamatória intestinal com pontos de corte usuais.
- Especificidade
- Moderada: costuma ficar em torno de ~60-80%, pois outras causas de inflamação também elevam o valor.
| Parâmetro | Faixa |
|---|---|
| Normal | < 50 µg/gInflamação intestinal pouco provável; sugere causa funcional |
| Intermediário | 50-150 µg/g (varia conforme o método)Zona cinzenta; pode exigir repetição ou avaliação adicional |
| Elevado | > 150-250 µg/gInflamação provável; reforça a necessidade de investigar (ex.: colonoscopia) |
- Não é específica de doença inflamatória intestinal (infecções, AINEs e outras causas elevam)
- Valores intermediários (zona cinzenta) são difíceis de interpretar
- Pode variar entre amostras e entre métodos de laboratório
- Não localiza nem define a causa exata da inflamação
Para que serve a calprotectina fecal
A calprotectina fecal é um exame de fezes que funciona como um marcador de inflamação intestinal. A calprotectina é uma proteína abundante nos neutrófilos, células de defesa do organismo. Quando há inflamação na parede do intestino, esses neutrófilos migram para o local e acabam liberados na luz intestinal — e, com eles, a calprotectina, que é eliminada e pode ser dosada nas fezes. Quanto mais inflamação, maior tende a ser a quantidade encontrada.
Seu grande valor está em uma pergunta muito comum na prática: diante de alguém com dor abdominal, diarreia ou alteração do hábito intestinal, o problema é orgânico (há uma doença com inflamação por trás) ou funcional (o intestino incomoda, mas está estruturalmente normal)? A calprotectina ajuda a responder isso de forma não invasiva.
Distinguir causa orgânica de funcional
Essa distinção é o ponto central do exame. De um lado estão as causas orgânicas com inflamação, com destaque para a doença inflamatória intestinal (doença de Crohn e retocolite ulcerativa), em que existe inflamação real e mensurável na parede do intestino. Do outro estão as causas funcionais, como a síndrome do intestino irritável (SII), em que os sintomas são reais e podem ser intensos, mas os exames não mostram inflamação nem lesão estrutural.
Diferenciar os dois grupos importa muito, porque o caminho é oposto. Na doença inflamatória intestinal, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado mudam a evolução da doença. Na SII, o excesso de exames invasivos costuma ser desnecessário e pode gerar mais ansiedade do que respostas. A calprotectina entra aqui como um filtro: um valor baixo em quem tem sintomas típicos de SII e sem sinais de alerta torna a doença inflamatória improvável e ajuda a evitar procedimentos como a colonoscopia; um valor alto reforça a suspeita de inflamação e indica a necessidade de investigar mais a fundo.
Valores de referência
Os pontos de corte variam um pouco conforme o laboratório e o método, mas uma leitura geral costuma ser:
- Abaixo de 50 µg/g: normal. Inflamação intestinal significativa é pouco provável, e o quadro aponta mais para causa funcional.
- Entre 50 e 150 µg/g (aproximadamente): zona intermediária, ou “cinzenta”. O resultado não é conclusivo e pode pedir repetição do exame após algumas semanas ou avaliação adicional, conforme o contexto.
- Acima de 150 a 250 µg/g: elevado. A inflamação é provável, e isso reforça a indicação de investigar a causa, tipicamente com colonoscopia e biópsias.
Vale repetir que esses limites não são absolutos: cada laboratório informa seus próprios valores de referência, e a interpretação deve considerar sempre o quadro clínico.
Como se preparar
Uma vantagem prática da calprotectina é a simplicidade. Ela não exige jejum nem dieta especial — basta coletar uma pequena amostra de fezes no recipiente fornecido pelo laboratório e entregar conforme as instruções.
Alguns cuidados ajudam a evitar resultados enganosos: idealmente, não realizar o exame durante o período menstrual (sangue pode interferir) e, quando possível, evitar a coleta durante o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como ibuprofeno e naproxeno, porque eles podem irritar o intestino e elevar a calprotectina mesmo sem doença inflamatória.
O que dizem as evidências
As evidências que sustentam a calprotectina fecal são das mais robustas entre os exames de fezes. Ela tem alta sensibilidade para inflamação intestinal, o que significa que um resultado baixo é bastante confiável para afastar doença inflamatória intestinal ativa — é justamente por isso que o exame é tão valioso como triagem em quem tem sintomas sugestivos de SII.
O ponto de atenção é a especificidade apenas moderada: a calprotectina não é exclusiva da doença inflamatória intestinal. Infecções intestinais, uso de AINEs, pólipos, doença celíaca e até quadros passageiros podem elevá-la. Por isso, um valor alto não fecha diagnóstico sozinho — ele indica que há inflamação e orienta o próximo passo, geralmente a colonoscopia, que permite ver e biopsiar a mucosa.
Outra limitação prática é a zona intermediária: valores próximos do limite são difíceis de interpretar e frequentemente exigem repetição ou seguimento. Há ainda variação entre amostras e entre métodos de laboratório, o que reforça a importância de comparar resultados usando sempre a mesma referência.
No contexto dos sintomas funcionais, a calprotectina se encaixa em uma estratégia de investigação racional. Metanálises e revisões sobre distúrbios intestinais, incluindo trabalhos como o de Shah et al. (2020) no campo do SIBO e da SII, reforçam a ideia de que separar quadros inflamatórios de funcionais muda a conduta e evita exames desnecessários. Em resumo: a calprotectina fecal não diz qual é a doença, mas responde muito bem à pergunta “há inflamação?”, e essa resposta, lida junto do quadro clínico, orienta boa parte das decisões seguintes.
Perguntas frequentes
Calprotectina alta significa que tenho doença de Crohn ou retocolite?
Não necessariamente. A calprotectina elevada indica inflamação no intestino, mas não diz a causa. Doença inflamatória intestinal é uma possibilidade importante, mas infecções intestinais, uso de anti-inflamatórios e outras condições também elevam o valor. Um resultado alto costuma ser o gatilho para investigar melhor, geralmente com colonoscopia, e não um diagnóstico por si só.
Calprotectina normal descarta problemas no intestino?
Descarta com boa confiança uma inflamação significativa, como na doença inflamatória intestinal, o que é justamente sua maior utilidade: um valor baixo em quem tem sintomas funcionais ajuda a evitar exames invasivos desnecessários. Mas ela não avalia tudo — não detecta, por exemplo, alterações sem inflamação, e não substitui a colonoscopia diante de sinais de alerta como sangramento ou anemia.
Preciso de jejum ou preparo para colher a calprotectina?
Não. É um exame de fezes simples, sem jejum nem dieta. Basta coletar uma pequena amostra no recipiente do laboratório. Convém evitar a coleta durante a menstruação e, se possível, longe do uso de anti-inflamatórios não esteroides, porque ambos podem elevar o resultado e confundir a interpretação.