Condição

Doença de Crohn

A doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal crônica que pode atingir qualquer trecho do tubo digestivo, da boca ao ânus, e inflama toda a espessura da parede do intestino. Cursa em surtos e remissões, com dor abdominal, diarreia e, muitas vezes, emagrecimento.

Evidência alta CID K50
Resposta rápida

A doença de Crohn é uma inflamação crônica que pode acometer qualquer parte do trato digestivo e atinge toda a espessura da parede intestinal. Os sintomas mais comuns são dor abdominal, diarreia e perda de peso, em episódios que vão e voltam. Não tem cura, mas o tratamento com medicamentos que controlam a inflamação permite longos períodos sem sintomas.

O que é

A doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal (DII) crônica. O sistema imune, por razões que ainda não estão totalmente esclarecidas, passa a atacar o próprio tubo digestivo, gerando inflamação persistente. Duas características a distinguem: ela pode atingir qualquer segmento do trato digestivo, da boca ao ânus, e a inflamação é transmural, ou seja, compromete toda a espessura da parede intestinal, e não apenas a camada mais interna.

Na prática, o trecho mais afetado é o fim do intestino delgado (o íleo terminal) e o início do intestino grosso, mas a doença pode surgir em vários pontos ao mesmo tempo, deixando áreas doentes entre áreas saudáveis: o padrão de lesões “salteadas”. Por atingir toda a parede, a doença de Crohn tende a produzir complicações que a retocolite ulcerativa raramente causa, como fístulas (comunicações anormais entre alças ou com a pele), estreitamentos (estenoses) e abscessos.

A evolução é em surtos: fases de atividade, com sintomas, alternando com períodos de remissão, em que a inflamação recua. O curso varia muito de pessoa para pessoa.

Sintomas

Os sintomas dependem de onde a doença está e de quão intensa é a inflamação. Os mais comuns são:

  • Dor abdominal, frequentemente no lado inferior direito da barriga quando o íleo está acometido, muitas vezes em cólica.
  • Diarreia crônica, que pode conter sangue ou muco quando o cólon está inflamado.
  • Perda de peso e desnutrição, resultado da inflamação e da má absorção de nutrientes.
  • Cansaço e anemia, comuns e às vezes o sintoma que mais incomoda.
  • Febre de baixo grau nos períodos de atividade.
  • Doença perianal: fissuras, fístulas e abscessos ao redor do ânus, que podem inclusive preceder os sintomas intestinais.

A doença de Crohn também tem manifestações fora do intestino (nas articulações, na pele, nos olhos), lembrando que se trata de uma doença sistêmica, e não apenas digestiva.

Como é diagnosticado

Não existe um exame isolado que confirme a doença de Crohn. O diagnóstico reúne história clínica, exames laboratoriais, imagem, endoscopia e biópsia.

A calprotectina fecal é um marcador de inflamação no intestino medido nas fezes. Um valor alto sugere inflamação intestinal (ajudando a diferenciar de quadros funcionais como a síndrome do intestino irritável), e ela também serve para acompanhar a atividade da doença ao longo do tempo, evitando exames mais invasivos repetidos.

A colonoscopia com biópsias é central: permite ver as lesões, avaliar sua extensão e colher fragmentos para análise ao microscópio, onde se buscam alterações típicas. Como a doença pode estar no intestino delgado, fora do alcance da colonoscopia, exames de imagem como a ressonância (enterografia) ou, às vezes, a cápsula endoscópica completam a avaliação. Exames de sangue ajudam a medir inflamação, anemia e carências nutricionais.

Tratamento

O tratamento tem dois objetivos: induzir a remissão quando a doença está ativa e mantê-la ao longo do tempo, de preferência cicatrizando a mucosa. Não se trata mais de apenas aliviar sintomas, mas de controlar a inflamação para evitar dano intestinal acumulado.

Os medicamentos incluem corticoides para as crises (usados por tempo curto), imunossupressores e, cada vez mais cedo, os biológicos, anticorpos que bloqueiam vias específicas da inflamação (como o anti-TNF), e moléculas mais novas. A escolha depende da gravidade, da localização e do risco de complicações. A cirurgia entra quando há estenoses, fístulas, abscessos ou falha do tratamento clínico, mas não cura a doença: ela pode voltar em outro trecho.

Cuidados de suporte fazem parte do dia a dia: correção de anemia e carências (ferro, vitamina B12, vitamina D), atenção à nutrição, parar de fumar (o tabagismo piora claramente o Crohn) e acompanhamento regular. A dieta ajuda no controle de sintomas, mas não substitui o tratamento da inflamação.

Probióticos

Sobre probióticos, é preciso ser honesto: a evidência na doença de Crohn é fraca. Diferente do que se vê na retocolite ulcerativa, não há dados consistentes de que qualquer cepa mude o curso do Crohn ou ajude a manter a remissão. A Escherichia coli Nissle 1917 tem estudos favoráveis na retocolite, mas não demonstrou o mesmo benefício no Crohn. Probióticos podem ter um papel coadjuvante em situações específicas, sempre conversado com o médico, mas não são tratamento da doença.

O que dizem as evidências

A base de evidências para o tratamento medicamentoso da doença de Crohn é sólida. Ensaios clínicos bem conduzidos sustentam o uso de corticoides nas crises, de imunossupressores e, sobretudo, dos biológicos, que transformaram o prognóstico nas últimas duas décadas. A estratégia de tratar mirando a cicatrização da mucosa, e não só o alívio dos sintomas, está associada a menos complicações e cirurgias.

Ao mesmo tempo, há incertezas importantes. Não sabemos exatamente o que desencadeia a doença nem por que ela varia tanto de pessoa para pessoa. Nem todo mundo responde aos biológicos, e alguns perdem a resposta com o tempo. O papel da microbiota é claro na origem da doença, mas as tentativas de manipulá-la (com probióticos ou transplante de microbiota) ainda não deram resultados robustos no Crohn.

O que se pode afirmar com segurança: a doença de Crohn é uma condição séria, crônica e controlável. Quanto mais cedo a inflamação é dominada, melhor tende a ser a evolução. Desconfie de promessas de cura por dietas, suplementos ou “protocolos” isolados: o controle real vem do acompanhamento médico continuado.

Perguntas frequentes

Doença de Crohn tem cura?

Não. A doença de Crohn é crônica e, por enquanto, não tem cura definitiva. Mas isso não significa conviver com sintomas o tempo todo. Com o tratamento certo, muitas pessoas ficam anos em remissão, ou seja, sem inflamação ativa e sem sintomas. O objetivo do tratamento moderno é justamente induzir e manter essa remissão, cicatrizando a mucosa e evitando complicações.

Qual a diferença entre doença de Crohn e retocolite ulcerativa?

As duas são doenças inflamatórias intestinais, mas têm padrões diferentes. A retocolite ulcerativa afeta só o cólon e o reto, de forma contínua e restrita à camada mais interna. A doença de Crohn pode aparecer em qualquer parte do tubo digestivo, costuma pular trechos (áreas doentes entre áreas sadias) e inflama toda a espessura da parede, o que favorece fístulas e estreitamentos. Em alguns casos é difícil diferenciar as duas no início.

A alimentação causa a doença de Crohn?

Não existe um alimento que cause a doença de Crohn. Ela resulta de uma combinação de predisposição genética, alterações da microbiota e uma resposta imune desregulada. A dieta pode influenciar os sintomas e, em algumas situações (como a nutrição enteral exclusiva em crianças), é usada como tratamento, mas não é a origem do problema. Culpar a comida ou o próprio paciente pela doença não faz sentido.

A doença de Crohn aumenta o risco de câncer?

A inflamação crônica do intestino, quando mal controlada por muitos anos, aumenta um pouco o risco de câncer colorretal, especialmente quando o cólon está envolvido. Por isso o acompanhamento com colonoscopia de vigilância faz parte do cuidado de longo prazo. Manter a doença controlada reduz esse risco.

Próximos passos