Exame

Teste respiratório de hidrogênio e metano

Exame não invasivo que mede hidrogênio e metano no ar expirado após ingerir um açúcar. É usado para investigar supercrescimento bacteriano (SIBO) e má absorção de carboidratos, como a de lactose.

Evidência moderada Revisado em 18 de maio de 2026
Resposta rápida

O teste respiratório mede os gases hidrogênio e metano no ar que você expira depois de ingerir uma solução açucarada. Como esses gases só são produzidos por bactérias, um aumento após a ingestão sugere fermentação — seja por supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO), seja por má absorção de açúcares. É simples e não invasivo, mas tem acurácia limitada e resultado que precisa ser interpretado com cautela.

Ficha técnica
Objetivo
Investigar supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) e má absorção de carboidratos, como a intolerância à lactose, medindo gases produzidos pela fermentação bacteriana.
Preparo
Nas 4 semanas anteriores, evitar antibióticos; por 1 semana, evitar procinéticos e laxantes (conforme orientação médica). Na véspera, fazer uma refeição restrita em carboidratos fermentáveis e depois jejum de 8 a 12 horas. No dia, não fumar nem fazer exercício intenso e evitar dormir durante o exame. Higiene bucal antes de começar reduz falsos-positivos.
Sensibilidade
Variável e moderada: em torno de ~60-70% para SIBO, dependendo do substrato (lactulose ou glicose) e do ponto de corte usado.
Especificidade
Ampla e dependente do método: cerca de ~40-80%, com a glicose tendendo a ser mais específica que a lactulose.
Valores de referência
ParâmetroFaixa
Hidrogênio (H₂)Aumento ≥20 ppm sobre a linha de base em ≤90 minutosCritério do North American Consensus (2017) para SIBO
Metano (CH₄)≥10 ppm a qualquer momento do testeSugere sobrecrescimento de metanogênicos (IMO); critério de consenso
Teste de lactoseAumento ≥20 ppm de H₂ sobre a linha de baseSugere má absorção de lactose; interpretar junto dos sintomas
Limitações importantes
  • Falsos-positivos por trânsito intestinal rápido (o açúcar chega cedo ao cólon)
  • Falta de padronização entre laboratórios e critérios
  • Não localiza com precisão onde ocorre a fermentação
  • Pessoas que produzem pouco hidrogênio podem gerar falsos-negativos
  • Correlação imperfeita com os sintomas

Para que serve o teste respiratório

O teste respiratório de hidrogênio e metano é um exame não invasivo usado principalmente para investigar duas situações: o supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) e a má absorção de carboidratos, como a intolerância à lactose e a má absorção de frutose.

A lógica por trás dele é elegante e simples. Hidrogênio e metano não são produzidos pelas células humanas — só bactérias os geram, ao fermentar carboidratos. Uma parte desses gases é absorvida pela parede intestinal, cai na corrente sanguínea, chega aos pulmões e é eliminada na respiração. Medindo esses gases no ar expirado depois de o paciente ingerir um açúcar conhecido, dá para inferir se, onde e quando está ocorrendo fermentação bacteriana.

Como funciona: lactulose x glicose

O exame usa um substrato, isto é, um açúcar que serve de “isca” para as bactérias. Os dois mais comuns são a lactulose e a glicose, e a escolha muda o significado do resultado.

  • Glicose. É absorvida logo no início do intestino delgado. Como quase nada dela chega ao cólon em condições normais, um aumento de gás após a glicose sugere que há bactérias fermentando lá em cima, no delgado — ou seja, tende a ser mais específica para SIBO, com menos falsos-positivos. A contrapartida é que pode não detectar um sobrecrescimento mais distal, escapando de alguns casos.
  • Lactulose. Não é absorvida pelo intestino humano e percorre todo o trajeto até o cólon, onde sempre acaba fermentada. Isso a torna mais sensível, mas também mais sujeita a falsos-positivos: se o trânsito for rápido, a lactulose chega cedo ao cólon e produz um pico que pode ser confundido com fermentação no delgado.

Para investigar intolerância à lactose, o substrato é a própria lactose: se a pessoa não a digere bem, o açúcar não absorvido é fermentado e o hidrogênio expirado sobe.

Na prática, o exame funciona assim: mede-se o gás basal (em jejum), o paciente ingere a solução açucarada, e novas amostras são coletadas em intervalos regulares, em geral a cada 15 ou 20 minutos, por 2 a 3 horas. O resultado é uma curva de hidrogênio e metano ao longo do tempo.

Como se preparar

O preparo é decisivo, porque o teste mede a atividade de bactérias e praticamente tudo interfere nisso. As orientações costumam incluir:

  • Antibióticos: evitar nas 4 semanas anteriores, pois reduzem a flora e podem gerar falsos-negativos.
  • Procinéticos e laxantes: suspender cerca de 1 semana antes, conforme orientação médica, porque alteram a velocidade do trânsito.
  • Véspera: fazer uma refeição restrita em carboidratos fermentáveis (algo como carne, arroz, peixe ou ovos, sem fibras, leguminosas ou adoçantes) para baixar a linha de base, seguida de jejum de 8 a 12 horas.
  • No dia: não fumar e não fazer exercício intenso (ambos alteram os gases expirados), evitar dormir durante o exame e fazer higiene bucal antes de começar, já que bactérias da boca podem produzir um pico precoce enganoso.

Alguns protocolos variam nesses detalhes, então vale seguir exatamente a orientação do laboratório e do médico que solicitou o exame.

Como interpretar: hidrogênio x metano

A leitura combina os dois gases, e cada um conta uma parte da história.

  • Hidrogênio (H₂). Pelo North American Consensus de 2017, um aumento de ≥20 ppm sobre a linha de base em até 90 minutos é considerado sugestivo de SIBO. A ideia dos 90 minutos é tentar capturar a fermentação enquanto o açúcar ainda está no intestino delgado, antes de chegar ao cólon.
  • Metano (CH₄). Um valor de ≥10 ppm a qualquer momento do teste sugere sobrecrescimento de arqueas metanogênicas, um quadro hoje chamado de IMO (intestinal methanogen overgrowth), frequentemente associado a constipação. O metano tem particularidade importante: como é produzido a partir do hidrogênio, pessoas com muitos metanogênicos podem ter hidrogênio baixo e mesmo assim ter fermentação intensa — por isso medir só o hidrogênio deixa escapar parte dos casos.

Para a intolerância à lactose, o critério usual é um aumento de ≥20 ppm de hidrogênio sobre a linha de base após ingerir lactose, sempre interpretado junto dos sintomas que a pessoa sente durante o teste.

O que dizem as evidências

Aqui é preciso ser honesto: o teste respiratório é útil, mas está longe de ser um exame perfeito, e essa é uma das áreas mais controversas da gastroenterologia funcional.

O primeiro problema é a acurácia limitada. A sensibilidade para SIBO gira em torno de 60% a 70% e a especificidade varia de cerca de 40% a 80%, dependendo do substrato e do ponto de corte. Ou seja, tanto falsos-positivos quanto falsos-negativos são comuns. O padrão de referência clássico para SIBO seria a cultura do aspirado do intestino delgado, mas ela também é imperfeita e pouco disponível, o que deixa o próprio “gabarito” do teste em discussão.

O segundo problema é a falta de padronização. Substratos, doses, intervalos de coleta e critérios de positividade variaram bastante ao longo dos anos, dificultando comparar resultados entre laboratórios e entre estudos. O consenso norte-americano de 2017 ajudou a uniformizar, mas nem todos os serviços seguem os mesmos critérios.

O terceiro é a correlação imperfeita com os sintomas. Metanálises como a de Shah et al. (2020) mostram que testes positivos são mais frequentes em pessoas com sintomas do que em pessoas assintomáticas, o que sugere alguma associação real — mas a sobreposição entre os grupos é grande, e um teste positivo não prova que o SIBO é a causa dos sintomas daquela pessoa. As diretrizes do American College of Gastroenterology sobre SIBO (2020) reconhecem esse cenário e recomendam interpretar o teste dentro do contexto clínico, não como um veredito isolado.

Some-se a isso o fato de que o trânsito rápido pode gerar falsos-positivos (especialmente com lactulose), e que não produtores de hidrogênio podem dar falsos-negativos se o metano não for medido. O resultado prático é claro: o teste respiratório é uma ferramenta de apoio, barata e sem riscos, mas o número que ele fornece só ganha sentido quando lido junto da história, dos sintomas e da resposta ao tratamento — e não como uma prova definitiva de que existe ou não SIBO.

Perguntas frequentes

O teste respiratório dói ou é desconfortável?

Não dói. É totalmente não invasivo: você só ingere uma solução açucarada e sopra em um aparelho ou em tubos coletores em intervalos regulares. O desconforto possível é indireto — se você tiver má absorção do açúcar testado, pode sentir gases, cólica ou diarreia durante ou após o exame, que costumam passar em poucas horas.

Lactulose ou glicose: qual substrato é melhor?

Depende da pergunta. A glicose é absorvida no início do intestino delgado, então tende a ser mais específica para SIBO proximal, com menos falsos-positivos, mas pode não detectar sobrecrescimento mais distal. A lactulose não é absorvida e percorre todo o intestino, o que aumenta a sensibilidade, mas também os falsos-positivos por trânsito rápido. Não há consenso de que um seja claramente superior ao outro.

Um teste positivo confirma que tenho SIBO?

Não de forma definitiva. Um teste positivo aumenta a probabilidade de SIBO, mas o exame tem acurácia limitada e resultados que se sobrepõem entre pessoas com e sem sintomas. Por isso o resultado deve sempre ser interpretado junto do quadro clínico, e não isoladamente. Um teste normal também não descarta SIBO por completo, especialmente em quem produz pouco hidrogênio.

Por que preparar tanto para um exame de sopro?

Porque o teste mede a atividade de bactérias, e quase tudo interfere nisso. Antibióticos recentes reduzem a fermentação e geram falsos-negativos; uma refeição rica em carboidratos fermentáveis na véspera eleva a linha de base; fumar e se exercitar alteram os gases expirados; e restos de comida na boca podem produzir um pico precoce enganoso. O preparo existe justamente para reduzir esses ruídos.

Próximos passos

Referências

  1. Shah A; Talley NJ; Jones M et al.. SIBO e síndrome do intestino irritável: metanálise da associação. American Journal of Gastroenterology, 2020.