Disfagia
Dificuldade de engolir — sensação de que o alimento fica preso no esôfago ou na garganta. Sintoma que nunca deve ser ignorado quando persistente, pois pode indicar desde distúrbio motor até obstrução.
Disfagia é a dificuldade de engolir, com a sensação de que o alimento fica preso no esôfago ou na garganta. Pode ser causada por distúrbios motores como acalásia, por obstrução mecânica como estenose ou tumor, ou por condições inflamatórias como a esofagite eosinofílica. Todo episódio persistente, especialmente quando progride de sólidos para líquidos ou vem acompanhado de perda de peso, merece avaliação médica sem demora.
O que é disfagia
Disfagia é a dificuldade de engolir. Não é a sensação de garganta seca ou o incômodo passageiro ao engolir um comprimido grande — é a percepção real de que o alimento ou o líquido não desce normalmente, ficando preso em algum ponto entre a boca e o estômago. Pode vir com dor (odinofagia), com tosse ou engasgo, ou simplesmente com a sensação de “trava”.
Do ponto de vista anatômico, divide-se em dois tipos com causas bem distintas. A disfagia orofaríngea tem origem na boca, na faringe ou no início do esôfago, e costuma ser causada por doenças neurológicas — AVC, Parkinson, esclerose lateral amiotrófica — que afetam a coordenação do ato de engolir. A disfagia esofágica ocorre no corpo do esôfago ou na sua junção com o estômago, e é esse tipo que mais frequentemente chega ao gastroenterologista.
Causas mecânicas e funcionais: a lógica do diagnóstico
A distinção mais útil para a investigação é entre causas mecânicas (algo que estreita ou bloqueia o esôfago) e causas funcionais ou motoras (o esôfago está livre, mas não funciona bem).
Causas mecânicas incluem tumores esofágicos, estenoses (estreitamentos por cicatriz após lesão por ácido ou corrosivos), anéis e membranas esofágicas. A esofagite eosinofílica entra aqui também, porque o acúmulo de eosinófilos torna a parede do esôfago rígida e estreita.
Causas motoras incluem acalásia — a mais importante delas — em que o músculo inferior do esôfago não relaxa adequadamente, e o esôfago perde a capacidade de empurrar o alimento. Há também outras dismotilidades esofágicas, como o espasmo difuso e o esôfago hipercontrátil.
Sólidos ou líquidos: uma pista diagnóstica valiosa
O padrão do que dificulta o engolir conta muito. Disfagia que começa com sólidos e piora progressivamente — passando para alimentos pastosos e depois líquidos — é um sinal de alarme para causa mecânica obstrutiva. Já disfagia para sólidos e líquidos desde o início, ou disfagia que às vezes melhora com manobras como endireitar o pescoço, aponta mais para distúrbio motor.
A progressão é o elemento mais importante: disfagia que claramente piora com o tempo precisa de avaliação rápida.
Esofagite eosinofílica: uma causa que cresceu
A esofagite eosinofílica (EoE) merece atenção especial porque seu diagnóstico praticamente dobrou nas últimas décadas. É uma condição imunomediada, frequentemente relacionada a alérgenos alimentares, que afeta adultos jovens e crianças. O sintoma mais característico em adultos é exatamente a disfagia para sólidos e os episódios de impactação alimentar — alimento preso no esôfago que precisa de remoção por endoscopia. O diagnóstico exige biópsia; a endoscopia pode mostrar sulcos, anéis ou exsudatos esbranquiçados, mas às vezes parece normal.
Como o médico avalia
A primeira pergunta é sempre há quanto tempo a disfagia ocorre e se está piorando. A endoscopia digestiva alta é o primeiro exame na maioria dos casos de disfagia esofágica: permite ver a mucosa, coletar biópsias (fundamental para EoE e neoplasias) e eventualmente tratar estenoses com dilatação no mesmo ato.
Quando a endoscopia está normal mas a disfagia persiste, a manometria esofágica entra em cena. É ela que diagnostica acalásia e outros distúrbios motores, medindo a pressão e a coordenação do esôfago durante o ato de engolir. Para disfagia orofaríngea, a videofluoroscopia da deglutição é o exame de referência.
O que dizem as evidências
A investigação de disfagia é bem estabelecida. Para EoE, as evidências apontam que a dieta de eliminação (retirando os principais alérgenos alimentares) e o corticoide tópico deglutido reduzem a inflamação e melhoram os sintomas em boa parte dos pacientes, com resposta variável conforme o protocolo. Para acalásia, as opções — miotomia cirúrgica, dilatação pneumática e, mais recentemente, a miotomia endoscópica peroral (POEM) — têm eficácia comparável em médio prazo, com vantagens e riscos distintos. O ponto central, e onde a evidência é mais sólida, é que disfagia persistente nunca deve ser atribuída a “estresse” sem que causas orgânicas sejam afastadas.
Perguntas frequentes
Disfagia para sólidos e para líquidos ao mesmo tempo é diferente de só para sólidos?
Sim, e essa distinção é uma das mais úteis para o médico. Disfagia isolada para sólidos sugere causa mecânica — algo estreitando o esôfago, como estenose, tumor ou anel esofágico. Quando afeta também líquidos, ou começa por eles, a suspeita muda para distúrbio motor, como acalásia, em que o esôfago perde a capacidade de se contrair coordenadamente. Não existe regra absoluta, mas esse padrão orienta bastante a investigação inicial.
Esofagite eosinofílica pode causar disfagia?
Pode, e é uma causa cada vez mais diagnosticada, especialmente em adultos jovens. Na esofagite eosinofílica o esôfago acumula eosinófilos em excesso, o que gera inflamação, rigidez e episódios de alimento parado na garganta — às vezes de forma dramática, com impactação alimentar. O diagnóstico exige biópsia durante a endoscopia, e o tratamento inclui dieta de exclusão ou corticoide tópico deglutido.
A manometria esofágica dói?
Causa desconforto, mas não é considerado um exame doloroso. Uma sonda fina é passada pelo nariz até o esôfago e mede a pressão em vários pontos enquanto a pessoa engole pequenos goles de água. O desconforto maior costuma ser na passagem pela nasofaringe. O exame dura em torno de trinta minutos e é o principal método para diagnosticar acalásia e outros distúrbios motores do esôfago.