Exame

Biópsia Duodenal

Coleta de fragmentos da mucosa do intestino delgado durante endoscopia digestiva alta para diagnóstico histológico de doença celíaca, doença de Crohn duodenal, giardíase e outras causas de má absorção. Padrão de referência para confirmar atrofia vilositária.

Evidência alta Revisado em 12 de julho de 2026
Resposta rápida

A biópsia duodenal é feita durante a endoscopia digestiva alta: o médico retira pequenos fragmentos da mucosa do duodeno para análise ao microscópio. É o exame definitivo para diagnosticar doença celíaca — detecta a atrofia das vilosidades que caracteriza a doença — e também serve para investigar outras causas de má absorção. Para ser confiável no diagnóstico celíaco, o paciente precisa estar consumindo glúten nas semanas anteriores ao exame.

Ficha técnica
Objetivo
Diagnóstico histológico de doença celíaca (atrofia vilositária), doença de Crohn duodenal, giardíase e outras causas de má absorção intestinal.
Preparo
Mesmo preparo da endoscopia digestiva alta: jejum de pelo menos 6 horas. Para diagnóstico de doença celíaca, o paciente deve estar consumindo glúten regularmente (mínimo 2 fatias de pão por dia) por pelo menos 6 semanas antes do exame — biópsia feita sem exposição ao glúten pode ser falso-negativa.
Sensibilidade
Sensibilidade de 90–95% para doença celíaca quando são coletados ≥4 fragmentos de diferentes partes do duodeno, incluindo o bulbo.
Especificidade
Especificidade superior a 99% para doença celíaca quando combinada com sorologia positiva (anti-tTG e anticorpo antiendomísio).
Valores de referência
ParâmetroFaixa
Marsh 0Mucosa normalSem alterações histológicas
Marsh IAumento de linfócitos intraepiteliais (>25/100 enterócitos)Inespecífico; presente em doença celíaca potencial, giardíase, uso de AINEs e outras condições
Marsh IIHiperplasia de criptas com aumento de linfócitos intraepiteliaisCompatível com doença celíaca, mas requer correlação com sorologia
Marsh IIIaAtrofia vilositária leve (vilosidades achatadas, relação vilo:cripta reduzida)Alta probabilidade de doença celíaca ativa quando sorologia positiva
Marsh IIIbAtrofia vilositária moderadaDoença celíaca ativa; diagnóstico praticamente confirmado com sorologia positiva
Marsh IIIcAtrofia vilositária total (mucosa plana)Forma mais grave; presente na doença celíaca não tratada ou refratária
Limitações importantes
  • Resultado depende da qualidade e da quantidade dos fragmentos coletados — menos de 4 fragmentos reduz a sensibilidade
  • Atrofia vilositária não é exclusiva de doença celíaca: SIBO, giardíase, enteropatia por medicamentos e outras condições podem causar o mesmo padrão
  • Distribuição em manchas das lesões celíacas pode levar a resultados falso-negativos se não incluir o bulbo duodenal
  • A lesão regride com dieta sem glúten — biópsia após exclusão do glúten não confirma o diagnóstico

O que é a biópsia duodenal e por que ela importa

A biópsia duodenal não é um exame independente: ela é feita durante a endoscopia digestiva alta, aproveitando o acesso ao intestino delgado que o endoscópio permite. O médico avança o aparelho até o duodeno e coleta fragmentos microscópicos da mucosa com uma pinça especial. Esses fragmentos são enviados ao laboratório de patologia, onde um anatomopatologista analisa a estrutura do tecido ao microscópio.

A importância desse exame vem de uma característica única da doença celíaca: ela causa danos histológicos reconhecíveis e mensuráveis na mucosa do intestino delgado. Sem a biópsia, não há como confirmar esse dano. É por isso que, mesmo com sorologia positiva, as principais diretrizes internacionais ainda recomendam a biópsia duodenal como parte do processo diagnóstico em adultos.

Quando a biópsia duodenal é indicada

As principais indicações incluem:

  • Suspeita de doença celíaca — especialmente quando a sorologia (anti-tTG IgA) é positiva, para confirmação histológica. Em casos de sorologia fortemente positiva (anti-tTG >10× o limite superior da normalidade), algumas diretrizes pediátricas permitem dispensar a biópsia, mas em adultos ela segue sendo recomendada.
  • Má absorção intestinal sem causa definida — perda de peso, diarreia gordurosa (esteatorreia), anemia ferropriva, deficiência de vitaminas lipossolúveis sem explicação.
  • Suspeita de doença de Crohn duodenal — quando a endoscopia mostra alterações na mucosa duodenal que precisam de confirmação histológica.
  • Investigação de giardíase quando o exame parasitológico de fezes é negativo mas a suspeita clínica persiste.
  • SIBO grave — em casos selecionados, para avaliar dano à mucosa.
  • Investigação de enteropatia por medicamentos (olmesartana, micofenolato) ou enteropatia autoimune.

Técnica correta: fragmentos e localização

A qualidade do diagnóstico depende diretamente da adequação da coleta. Estudos que avaliaram o impacto do número de fragmentos mostram que:

  • Menos de 4 fragmentos aumenta substancialmente o risco de falso-negativo, porque a distribuição das lesões celíacas pode ser irregular.
  • 4 ou mais fragmentos, incluindo o bulbo duodenal (porção D1) além das porções D2 e D3, é o padrão recomendado pelas sociedades de gastrenterologia.

A inclusão do bulbo duodenal é especialmente importante. Por muito tempo, ele foi excluído das biópsias por apresentar variações histológicas normais que poderiam confundir a interpretação. Hoje sabe-se que lesões celíacas podem estar presentes apenas ou predominantemente no bulbo — omiti-lo significa perder casos reais. O patologista deve ser informado que o bulbo foi amostrado, para interpretar corretamente possíveis artefatos.

A orientação do fragmento na inclusão histológica também importa: fragmentos mal orientados dificultam a avaliação das vilosidades e podem parecer mais atróficos do que realmente são.

A escala de Marsh: graduando a lesão

A Escala de Marsh, desenvolvida originalmente por Michael Marsh e depois modificada por Oberhuber, é o sistema de graduação das lesões celíacas na biópsia. Ela vai de Marsh 0 (mucosa normal) a Marsh IIIc (atrofia vilositária total), e avalia três componentes: o aumento de linfócitos intraepiteliais, a hiperplasia de criptas e o grau de atrofia das vilosidades.

Na prática clínica, os achados mais relevantes são:

  • Marsh I: aumento de linfócitos intraepiteliais (mais de 25 por 100 enterócitos) sem atrofia. É o achado mais inespecífico — pode estar presente na doença celíaca potencial, mas também na giardíase, uso de AINEs, infecção por Helicobacter pylori e intolerâncias alimentares. Requer cuidado na interpretação.
  • Marsh III (a, b ou c): diferentes graus de atrofia vilositária. Combinado com sorologia positiva, é altamente sugestivo (e na prática confirmatório) de doença celíaca.

Um detalhe importante: a escala classifica a lesão histológica, não a gravidade dos sintomas. A correlação entre grau de Marsh e intensidade dos sintomas é fraca — há pessoas com mucosa plana (Marsh IIIc) que são praticamente assintomáticas, e outras com Marsh I que têm sintomas debilitantes.

Diagnóstico diferencial da atrofia vilositária

Quando a biópsia mostra atrofia vilositária mas a sorologia celíaca é negativa, o raciocínio diagnóstico precisa se ampliar. As principais causas não celíacas de atrofia vilositária incluem:

  • Giardíase — o parasita Giardia lamblia pode causar lesão que vai de Marsh I até Marsh III, especialmente em imunodeprimidos.
  • SIBO grave — supercrescimento bacteriano no intestino delgado pode lesar a mucosa de forma difusa.
  • Enteropatia por olmesartana — anti-hipertensivo da classe dos sartans associado a enteropatia grave com atrofia vilositária, às vezes confundida com doença celíaca sorológica-negativa.
  • Enteropatia autoimune — condição rara que cursa com atrofia refratária e anticorpos antienterócito.
  • Doença de Whipple — infecção por Tropheryma whipplei com achados histológicos característicos (macrófagos PAS-positivos).
  • Linfoma de células T associado à enteropatia (EATL) — complicação grave da doença celíaca não tratada, com atrofia persistente.

O diagnóstico diferencial é a razão pela qual sorologia e histologia precisam ser interpretadas em conjunto. A combinação de sorologia positiva (especialmente HLA-DQ2/DQ8 em casos duvidosos) e atrofia vilositária é o que fundamenta o diagnóstico de doença celíaca com segurança.

O que dizem as evidências

A biópsia duodenal mantém posição central no diagnóstico da doença celíaca porque é o único método que documenta diretamente o dano tecidual. Estudos de acurácia mostram sensibilidade de 90–95% para doença celíaca quando a coleta inclui ≥4 fragmentos com bulbo, e especificidade superior a 99% quando a histologia é combinada com sorologia positiva.

A principal limitação é a dependência de glúten na dieta antes da coleta. Pacientes que já iniciaram dieta sem glúten por conta própria — prática cada vez mais comum — apresentam mucosa em processo de recuperação, e o diagnóstico histológico pode ser impossível sem reintrodução formal. Nesse cenário, o teste do glúten (reintrodução controlada por 6–8 semanas antes da biópsia) é necessário para um diagnóstico definitivo, mas frequentemente recusado por pacientes que já notaram melhora com a dieta.

A controvérsia sobre a necessidade de biópsia em adultos com sorologia muito positiva (anti-tTG >10× o limite) ainda não está resolvida em adultos — diferente das diretrizes pediátricas da ESPGHAN, que permitem dispensar a biópsia nesse cenário. Até revisões de diretrizes mais recentes, a biópsia segue sendo recomendada em adultos para confirmação diagnóstica.

Perguntas frequentes

Por que preciso continuar comendo glúten antes da biópsia?

Porque a biópsia avalia o dano causado pelo glúten na mucosa intestinal. Se o paciente retirar o glúten antes do exame, as vilosidades começam a se recuperar e a lesão pode não ser mais visível — resultando em um exame falsamente normal. Para um resultado confiável, é necessário consumir glúten regularmente por pelo menos 6 semanas antes da coleta. Se já excluiu o glúten, converse com seu médico sobre o protocolo de reintrodução antes do exame.

Quantos fragmentos precisam ser coletados?

Pelo menos 4 fragmentos, de diferentes partes do duodeno — e hoje as diretrizes recomendam incluir o bulbo duodenal (primeira porção) além das porções mais distais. Isso porque a doença celíaca pode ter distribuição irregular, e amostrar apenas uma região aumenta o risco de perder a lesão. Mais fragmentos significa mais segurança diagnóstica.

A escala de Marsh determina a gravidade dos sintomas?

Não necessariamente. Existe correlação fraca entre o grau histológico e a intensidade dos sintomas. Algumas pessoas com Marsh IIIc têm poucos sintomas digestivos, enquanto outras com Marsh I têm sintomas significativos. A escala serve para classificar a lesão e acompanhar a resposta à dieta sem glúten, mas não deve ser usada isoladamente para avaliar o impacto clínico da doença.

Atrofia vilositária significa sempre doença celíaca?

Não. A atrofia vilositária é um achado histológico que pode ser causado por várias condições além da doença celíaca: SIBO grave, giardíase, enteropatia autoimune, uso prolongado de olmesartana e outros medicamentos, e doença de Whipple, entre outras. É exatamente por isso que a sorologia (anti-tTG, EMA) precisa ser avaliada junto com a histologia — a combinação de sorologia positiva e atrofia vilositária é o que confirma o diagnóstico celíaco.

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