Tratamento

Infliximabe

O infliximabe foi o primeiro biológico aprovado para a doença inflamatória intestinal. É um anticorpo anti-TNF-alfa aplicado por infusão venosa, capaz de induzir e manter a remissão na doença de Crohn e na retocolite ulcerativa, inclusive nas formas fistulizantes. Exige rastreamento de tuberculose e hepatite B antes de iniciar.

Evidência alta Medicamento Revisado em 13 de julho de 2026
Resposta rápida

O infliximabe é um biológico que bloqueia o TNF-alfa, uma proteína central na inflamação da doença de Crohn e da retocolite ulcerativa. É aplicado por soro na veia, em doses de ataque nas semanas 0, 2 e 6 e depois a cada 8 semanas. Antes de começar é obrigatório rastrear tuberculose e hepatite B, porque o remédio reduz a defesa contra infecções. Combiná-lo com azatioprina costuma prolongar o tempo em que continua funcionando.

Ficha técnica
Princípio ativo
Infliximabe
Classe
Anticorpo monoclonal quimérico IgG1 anti-TNF-alfa
Mecanismo
Liga-se ao TNF-alfa nas formas solúvel e transmembrana, neutralizando essa citocina e bloqueando a cascata inflamatória que ela comanda na mucosa intestinal.
No Brasil
Disponível como Remicade e por biossimilares (custo menor), fornecido pelo SUS e pela saúde suplementar para DII dentro de critérios. Aplicação em ambiente com suporte para reações infusionais.
Indicações
  • Doença de Crohn moderada a grave
  • Retocolite ulcerativa moderada a grave
  • Doença de Crohn fistulizante
  • Resgate na colite ulcerativa aguda grave refratária a corticoide
Contraindicações
  • Tuberculose ativa (rastrear com PPD ou IGRA antes de iniciar)
  • Infecções graves ativas, incluindo sepse e abscesso
  • Insuficiência cardíaca moderada a grave
  • Linfoma ou neoplasia ativa
  • Hepatite B não tratada (risco de reativação)
Efeitos adversos
  • Reações à infusão (durante ou logo após o soro)
  • Infecções oportunistas e reativação de tuberculose
  • Reativação de hepatite B
  • Formação de anticorpos anti-infliximabe (imunogenicidade) com perda de resposta
  • Reações de hipersensibilidade tardia
  • Risco possível de linfoma, ainda debatido
Interações
  • Outros imunossupressores e biológicos (não combinar biológicos diferentes)
  • Vacinas de vírus vivo (contraindicadas durante o uso)

Como funciona

O infliximabe é um anticorpo monoclonal dirigido contra o fator de necrose tumoral alfa, o TNF-alfa. Essa citocina é uma das peças centrais da inflamação na doença de Crohn e na retocolite ulcerativa: ela recruta células de defesa, mantém o processo inflamatório aceso e contribui para o dano à parede do intestino. Ao se ligar ao TNF-alfa, o infliximabe o retira de circulação e interrompe a cascata que ele comanda.

Uma particularidade importante é que ele neutraliza tanto o TNF-alfa solúvel, que circula livre, quanto a forma presa à membrana das células. Essa ação dupla ajuda a explicar por que o efeito costuma ser mais amplo do que apenas apagar a inflamação: em algumas células, a ligação leva à morte celular programada, reduzindo o número das que sustentam a doença.

Estruturalmente, o infliximabe é um anticorpo quimérico, isto é, parte humano e parte de origem murina (de camundongo). Essa origem parcialmente estranha é a raiz de um de seus principais desafios, a imunogenicidade, discutida adiante.

Para que é usado

O infliximabe foi o primeiro biológico aprovado para a doença inflamatória intestinal e abriu uma era no tratamento dessas condições. Ele é indicado nas formas moderadas a graves de Crohn e de colite ulcerativa, sobretudo quando não houve resposta adequada a corticoide e imunossupressores como a azatioprina.

Um território em que se destaca é a doença de Crohn fistulizante, na qual trajetos anormais se formam entre o intestino e outras estruturas. Nesse cenário, o infliximabe tem papel bem estabelecido no fechamento das fístulas, algo que poucas terapias conseguem. Ele também é usado como resgate na colite ulcerativa aguda grave que não responde a corticoide venoso, uma situação em que a alternativa pode ser a cirurgia.

Triagem antes de iniciar

Nenhuma etapa é tão importante quanto a avaliação que precede a primeira dose. Como o TNF-alfa participa da contenção de infecções latentes, o infliximabe pode reativar quadros adormecidos. Por isso, antes de começar, investiga-se tuberculose latente com PPD ou IGRA e radiografia de tórax, e pesquisa-se hepatite B com sorologia. Quando há infecção latente, ela é tratada antes ou junto ao início do biológico.

A atualização do calendário vacinal também entra nessa fase, de preferência antes da imunossupressão, porque vacinas de vírus vivo passam a ser contraindicadas durante o uso. Reconhecer que o infliximabe é eficaz, mas exige esse preparo, é o que torna o tratamento seguro.

Regime e segurança

O esquema clássico usa 5 mg/kg por via intravenosa nas semanas 0, 2 e 6 — a fase de indução — seguido de manutenção a cada 8 semanas. As aplicações ocorrem em ambiente preparado para monitorar reações à infusão, que podem surgir durante ou logo após o soro.

Os riscos mais relevantes são infecciosos: infecções oportunistas, reativação de tuberculose e de hepatite B. Há ainda a imunogenicidade, a formação de anticorpos anti-infliximabe que reduzem o efeito ao longo do tempo. É justamente para conter esse fenômeno que se costuma associar a azatioprina, estratégia de terapia combinada que diminui a produção desses anticorpos e prolonga a resposta. O risco de linfoma ligado ao uso é discutido e provavelmente pequeno, mas entra na conversa sobre benefício e risco a longo prazo.

O que dizem as evidências

A base de evidência do infliximabe na doença inflamatória intestinal é sólida e sustentada por ensaios clínicos randomizados que mostraram, de forma consistente, benefício na indução e na manutenção da remissão tanto no Crohn quanto na colite ulcerativa, além do efeito específico sobre fístulas. Foi essa robustez que o consolidou como referência entre os biológicos.

Vale ser honesto sobre os limites. Nem todos respondem, e parte de quem responde perde o efeito com o tempo, seja por imunogenicidade, seja por outros mecanismos. Nesses casos, ajusta-se a dose, encurta-se o intervalo ou troca-se de biológico. A dosagem dos níveis do remédio e dos anticorpos no sangue ajuda a orientar essas decisões. Reconhecer o infliximabe como um tratamento potente, porém que exige triagem cuidadosa, monitoramento e ajustes ao longo do caminho, é o que permite extrair o máximo dele sem ilusões.

Perguntas frequentes

Por que preciso investigar tuberculose e hepatite B antes de começar?

Porque o infliximabe bloqueia o TNF-alfa, uma proteína que ajuda o corpo a conter infecções latentes. Quem tem tuberculose adormecida pode reativá-la de forma grave ao iniciar o remédio, e o mesmo vale para a hepatite B. Por isso a triagem com PPD ou IGRA, radiografia de tórax e sorologias virais é feita antes da primeira dose. Quando há infecção latente, ela é tratada primeiro. É uma etapa de segurança, não burocracia.

Por que às vezes o infliximabe é combinado com azatioprina?

Porque a combinação reduz a formação de anticorpos contra o infliximabe. Como ele é um anticorpo em parte de origem animal, o organismo pode reconhecê-lo como estranho e produzir anticorpos que o neutralizam, fazendo o remédio perder efeito com o tempo. Associar a azatioprina diminui essa imunogenicidade e tende a manter níveis mais estáveis do biológico, prolongando a resposta. A decisão pesa esse benefício contra o risco de somar dois imunossupressores.

O que é uma reação à infusão?

É uma reação que ocorre durante a aplicação do soro ou logo depois, com sintomas como calor no rosto, coceira, falta de ar, alteração da pressão ou febre. A maioria é leve e controlável reduzindo a velocidade da infusão ou com medicação. Por isso o infliximabe é aplicado em ambiente preparado para monitorar e tratar essas reações caso apareçam.

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