Dor abdominal
Dor ou desconforto na barriga, de cólica passageira a incômodo persistente. É um dos motivos mais comuns de consulta e tem dezenas de causas possíveis, da mais banal à mais grave.
Dor abdominal é qualquer dor ou desconforto na região entre o tórax e a virilha. A maioria dos episódios é passageira e ligada a gases, alimentação ou ao funcionamento do intestino. Quando é intensa e súbita, contínua e progressiva, ou vem acompanhada de febre, vômitos ou sangramento, precisa de avaliação médica sem adiar.
O que é a dor abdominal
Dor abdominal é qualquer dor ou desconforto sentido na região entre o tórax e a virilha — a “barriga”, no uso comum. É um dos sintomas mais frequentes que existem: praticamente todo mundo já teve, e ela responde por uma parcela grande das consultas em clínica geral e pronto-socorro.
Justamente por ser tão comum, ela é pouco específica. A mesma dor pode vir de uma indigestão passageira ou de um problema que exige cirurgia. Por isso, mais importante do que a dor em si é o conjunto: como ela começou, onde fica, o que melhora e piora, e com que outros sinais aparece.
Tipos de dor e o que sugerem
A forma da dor dá pistas sobre a origem:
- Cólica (em ondas). Aumenta e diminui em ciclos. Costuma vir da contração de uma víscera oca, como o intestino tentando vencer um obstáculo ou lidando com excesso de gás.
- Dor contínua e crescente. Mantém-se e piora com o tempo. Merece mais atenção, porque pode indicar inflamação de um órgão ou irritação do peritônio (a membrana que reveste o abdômen).
- Dor em queimação no alto da barriga. Aponta mais para estômago e esôfago (gastrite, refluxo, úlcera).
- Dor que muda de lugar. A dor visceral é imprecisa: começa difusa, no meio da barriga, e só depois se localiza. A migração da dor para o lado direito inferior, por exemplo, é um padrão clássico de apendicite.
A intensidade nem sempre acompanha a gravidade. Uma cólica de gases pode ser insuportável e inofensiva, enquanto quadros sérios às vezes doem pouco no início.
Causas mais comuns ligadas ao intestino
Entre as causas digestivas frequentes de dor abdominal recorrente estão:
- Síndrome do intestino irritável (SII). A dor é o sintoma central, tipicamente relacionada à evacuação (melhora ou piora ao evacuar) e acompanhada de mudança no hábito intestinal e distensão. É uma das causas mais comuns de dor crônica na barriga.
- Intolerância à lactose e outras má absorções, em que o açúcar não digerido é fermentado no cólon e provoca cólica, gases e diarreia algumas horas após o consumo.
- SIBO (supercrescimento bacteriano do intestino delgado). O excesso de bactérias no intestino delgado pode gerar dor, distensão e alteração do trânsito, embora a relação entre SIBO e sintomas ainda seja debatida.
- Disbiose intestinal, um desequilíbrio da microbiota que pode influenciar a fermentação, a sensibilidade e a motilidade.
- Constipação e excesso de gases, com distensão associada e cólica que costuma aliviar ao evacuar ou eliminar flatos.
Fora do intestino, dor abdominal pode vir do estômago (gastrite, úlcera), das vias biliares (cálculos), do pâncreas, do trato urinário e dos órgãos ginecológicos — motivo pelo qual a avaliação médica não se limita ao intestino.
Quando é sinal de alerta
A maioria dos episódios é benigna, mas alguns cenários pedem atendimento imediato, sem esperar passar:
- Dor intensa e de início súbito
- Dor contínua que piora de forma progressiva
- Barriga rígida, “em tábua”, ou muito dolorida ao toque
- Febre associada à dor
- Vômitos persistentes ou impossibilidade de eliminar gases e fezes
- Sangue nas fezes, fezes muito escuras ou vômito com sangue
- Perda de peso sem explicação
- Dor que acorda a pessoa à noite ou que surge pela primeira vez após os 50 anos
Esses sinais não confirmam doença grave, mas mudam a urgência da investigação e afastam a conduta de “observar em casa”.
O que costuma ser investigado
A avaliação começa pela história e pelo exame físico, que já direcionam muito. Dependendo do quadro, podem entrar exames de sangue (hemograma, marcadores de inflamação, função hepática e pancreática), exame de urina e, quando o intestino é o foco, exames de fezes como a calprotectina fecal, útil para separar causas funcionais de inflamatórias.
Diante de sinais de alerta, alteração persistente do hábito intestinal ou para rastreamento conforme a idade, a colonoscopia costuma ser indicada. Quando há suspeita de má absorção de açúcares ou de supercrescimento bacteriano, o teste respiratório pode ser solicitado, sempre com a ressalva de que tem acurácia limitada. Exames de imagem, como ultrassom e tomografia, entram conforme a suspeita clínica.
O que dizem as evidências
Para a dor de origem funcional, que é a mais comum na prática ambulatorial, as evidências apontam algumas direções. A dieta com baixo teor de FODMAPs reduz a dor e a distensão em boa parte das pessoas com SII, como mostrou o ensaio de Halmos et al. (2014); ainda assim, não funciona para todos e deve ser conduzida com orientação para não empobrecer a alimentação a longo prazo.
A relação entre dor funcional e SIBO permanece incerta. Metanálises como a de Shah et al. (2020) encontram supercrescimento bacteriano com mais frequência em quem tem sintomas do que em quem não tem, mas a grande variação entre os estudos e as limitações dos testes diagnósticos impedem afirmar uma relação de causa e efeito. Na prática, a dor abdominal quase nunca tem explicação única: entender o padrão, afastar os sinais de alerta e testar mudanças de forma orientada costuma render mais do que caçar um único culpado.
Perguntas frequentes
Como saber se a dor na barriga é grave?
Alguns sinais aumentam a preocupação: dor intensa que aparece de repente, dor que piora de forma contínua em vez de ir e voltar, barriga rígida e muito sensível ao toque, febre, vômitos persistentes, sangue nas fezes ou impossibilidade de eliminar gases. Diante de qualquer um desses, o melhor é buscar atendimento em vez de esperar passar.
Dor abdominal que vai e volta há meses é normal?
Dor que aparece em episódios, muda de lugar, tem relação com as refeições ou com a evacuação e melhora ao eliminar gases ou fezes costuma ser de origem funcional, como na síndrome do intestino irritável. Não é 'normal' no sentido de esperada, mas raramente indica algo grave. Ainda assim, vale relatar ao médico para investigar e conduzir o alívio.
Onde dói ajuda a saber a causa?
Em parte. A localização dá pistas: dor no alto da barriga costuma vir do estômago, dor no baixo-ventre com relação ao intestino grosso, e assim por diante. Mas a dor visceral é imprecisa por natureza e muitas vezes é sentida longe do órgão de origem, então a localização orienta, mas não fecha o diagnóstico sozinha.