Gastrite Crônica
Inflamação crônica da mucosa gástrica, causada principalmente por H. pylori ou pelo uso prolongado de anti-inflamatórios. Frequentemente silenciosa, pode evoluir para úlcera ou, raramente, para câncer gástrico.
Gastrite crônica é a inflamação persistente do revestimento do estômago, na maioria das vezes causada pela bactéria Helicobacter pylori ou pelo uso prolongado de anti-inflamatórios. Costuma ser silenciosa; quando dá sintomas, aparecem dor na boca do estômago, náusea e saciedade precoce. O diagnóstico é por endoscopia com biópsia, e tratar a causa — sobretudo erradicar o H. pylori — reduz o risco de complicações a longo prazo.
O que é
Gastrite crônica é a inflamação persistente da mucosa que reveste o estômago. Diferente de uma irritação passageira depois de um exagero alimentar ou de uma noite de bebida, aqui a inflamação se instala por meses ou anos, geralmente sem que a pessoa perceba. Ela é um diagnóstico histológico — quem confirma é o patologista, ao examinar um fragmento retirado na endoscopia, não a intensidade dos sintomas relatados.
Essa dissociação entre o que se sente e o que existe na mucosa é uma das características mais importantes da doença. Muita gente com endoscopia “de gastrite” tem poucos ou nenhum sintoma, e muita gente com sintomas de estômago tem a mucosa normal. Por isso, o termo é usado com mais rigor do que no dia a dia, onde “gastrite” virou sinônimo genérico de qualquer desconforto gástrico.
Causas
A principal causa é a infecção pela bactéria Helicobacter pylori. Adquirida em geral na infância, ela se instala na camada de muco do estômago e mantém uma inflamação de baixo grau que pode durar a vida inteira. É a forma mais comum de gastrite crônica no mundo e a mais relevante do ponto de vista de complicações.
A segunda causa importante é o uso prolongado de anti-inflamatórios não esteroides (os AINEs, como ibuprofeno, diclofenaco e o próprio ácido acetilsalicílico). Eles reduzem os mecanismos naturais de proteção da mucosa e favorecem tanto a inflamação quanto as úlceras. Uma terceira forma, menos frequente, é a gastrite autoimune, na qual o sistema imune ataca as células produtoras de ácido — levando à hipocloridria e, com o tempo, à deficiência de vitamina B12.
Quando a inflamação persiste, a mucosa pode sofrer mudanças estruturais: a atrofia, em que as glândulas gástricas se reduzem, e a metaplasia intestinal, em que o epitélio do estômago passa a se parecer com o do intestino. São essas alterações — e não a gastrite em si — que elevam o risco a longo prazo.
Como evolui
A maioria das gastrites crônicas permanece estável e sem consequências. Uma parcela evolui para úlcera péptica, sobretudo quando há H. pylori ou uso de AINEs somados. E uma fração menor, ao longo de muitos anos e passando por atrofia e metaplasia, entra na chamada cascata que pode culminar em câncer gástrico. Vale insistir: essa é uma minoria, e a progressão é lenta, o que abre espaço para intervenção.
Quando há sintomas, costumam ser dor ou desconforto na parte alta do abdome, náusea, saciedade precoce e azia. São inespecíficos e se confundem com os da dispepsia funcional, motivo pelo qual a endoscopia é útil para distinguir os quadros.
O que dizem as evidências
O ponto mais bem estabelecido é o valor de erradicar o H. pylori. Estudos e revisões mostram que tratar a infecção cicatriza a inflamação, reduz a recorrência de úlceras e diminui o risco de câncer gástrico ao longo do tempo, especialmente quando feito antes de surgirem atrofia e metaplasia avançadas. O benefício é maior quanto mais cedo se trata.
O diagnóstico se apoia na endoscopia digestiva alta com biópsia, que confirma a inflamação, avalia atrofia e metaplasia e permite pesquisar o H. pylori. Testes não invasivos, como o de ureia expirada e o antígeno fecal, também detectam a bactéria e servem para confirmar a erradicação depois do tratamento.
Já os inibidores de bomba de prótons controlam sintomas e ajudam a cicatrizar lesões, mas não tratam a causa quando ela é o H. pylori — reduzir o ácido sem eliminar a bactéria não resolve a inflamação de fundo. É por isso que a lógica do tratamento é identificar e corrigir o que sustenta a gastrite, não apenas suprimir o desconforto.
Quando vigiar
Nem toda gastrite crônica exige seguimento, mas algumas situações pedem atenção. Biópsias que mostram atrofia extensa ou metaplasia intestinal podem justificar vigilância endoscópica periódica, discutida caso a caso. Sinais como perda de peso, sangramento, anemia ou dificuldade para engolir nunca devem ser atribuídos “à gastrite” sem investigação — eles apontam para causas que precisam ser descartadas com prioridade. E o início de sintomas dispépticos após os 60 anos merece endoscopia mais cedo do que em pessoas jovens.
Perguntas frequentes
Gastrite crônica vira câncer?
Na grande maioria das pessoas, não. A gastrite crônica por H. pylori aumenta o risco de câncer gástrico ao longo de décadas, sobretudo quando evolui para atrofia da mucosa e metaplasia intestinal — mas o risco absoluto individual continua baixo. Erradicar o H. pylori reduz esse risco. Quem tem alterações mais avançadas na biópsia pode precisar de acompanhamento endoscópico periódico.
Preciso tomar remédio para o resto da vida?
Geralmente não. Se a causa é o H. pylori, o tratamento é um esquema de antibióticos por alguns dias, e depois se confirma a erradicação. Inibidores de bomba de prótons costumam ser usados por períodos definidos para controlar sintomas ou cicatrizar úlceras, não indefinidamente. O uso crônico deve ter indicação clara e revisão periódica.
A gastrite autoimune é diferente?
Sim. Nela, o próprio sistema imune ataca as células do estômago que produzem ácido e o fator intrínseco, o que pode levar à deficiência de vitamina B12 e anemia. É menos comum, não tem relação com H. pylori e exige acompanhamento próprio, incluindo reposição de B12 quando necessário.