pH-metria Esofágica (Monitorização Ambulatorial do pH)
Padrão de referência para confirmar e quantificar a exposição ácida no esôfago. Fundamental para documentar refluxo gastroesofágico antes de cirurgia antirrefluxo e em casos com sintomas persistentes apesar do tratamento.
A pH-metria esofágica mede por 24 horas quanto ácido gástrico chega ao esôfago, e correlaciona esses episódios com os sintomas do paciente. É o exame certo quando a endoscopia é normal mas os sintomas de refluxo persistem, ou antes de uma cirurgia antirrefluxo. Pode ser feita com cateter nasal ou com uma cápsula sem fio fixada por endoscopia.
- Objetivo
- Medir a exposição do esôfago ao ácido gástrico por 24 horas, documentar correlação entre episódios de refluxo e sintomas, e diferenciar refluxo verdadeiro de queixas funcionais.
- Preparo
- Suspender inibidores de bomba de prótons por 5 a 7 dias antes do exame para teste diagnóstico (ou mantê-los para testar se o tratamento está sendo eficaz). Cateter nasal posicionado 5 cm acima do EEI por 24 horas ou cápsula Bravo fixada por endoscopia (48–96 horas, sem cateter).
- Sensibilidade
- Moderada a alta para refluxo ácido patológico; menos sensível para refluxo não-ácido (requer impedância-pH combinada).
- Especificidade
- Alta — um tempo de exposição ácida acima do limiar é diagnóstico.
| Parâmetro | Faixa |
|---|---|
| Tempo de exposição ácida (TEA) | Normal: < 4% do tempo total com pH < 4TEA > 6% é definitivamente patológico; 4–6% é zona cinzenta |
| Número de episódios de refluxo | Normal: < 50 episódios de pH < 4 em 24 horasReferência depende do laboratório e do método |
- Detecta principalmente refluxo ácido — refluxo alcalino ou misto requer monitorização por impedância
- O cateter nasal pode incomodar e alterar o comportamento do paciente durante o exame
- Interpretação depende do limiar usado (pH < 4 é convenção)
Por que a pH-metria existe
A endoscopia mostra a mucosa do esôfago, mas não consegue capturar o que acontece ao longo do dia. Muitas pessoas com sintomas típicos de refluxo — azia, regurgitação, sensação de queimação — têm endoscopia completamente normal. Isso não significa que não têm refluxo; significa que o ácido pode subir sem causar esofagite visível. Para saber se o refluxo realmente acontece e com que frequência, é preciso medir o ácido diretamente no esôfago ao longo do tempo. É isso que a pH-metria faz.
Como funciona o exame
Um sensor de pH é posicionado 5 cm acima do esfíncter esofágico inferior — ponto de referência definido pela manometria prévia ou por cálculo de localização. O sensor registra continuamente o pH local. Quando o pH cai abaixo de 4, isso indica que ácido gástrico chegou àquela região — um episódio de refluxo ácido.
O registro acontece por 24 horas (com cateter nasal) ou 48 a 96 horas (com a cápsula Bravo sem fio). Durante esse período, o paciente segue sua rotina habitual, anota os sintomas em um diário e marca eventos relevantes como refeições e posição (deitado ou em pé). Essa anotação é fundamental para calcular a correlação sintoma-refluxo: se a azia aparece nos momentos em que o pH cai, a correlação é alta e o refluxo explica os sintomas. Se os sintomas surgem quando o pH está normal, a origem funcional ganha peso.
O que os números medem
Três variáveis principais são avaliadas:
Tempo de exposição ácida (TEA): a porcentagem do tempo total em que o pH esofágico ficou abaixo de 4. É a medida mais importante. Abaixo de 4% é normal; acima de 6% é definitivamente patológico; a faixa de 4–6% é ambígua e exige correlação clínica.
Número de episódios de refluxo: quantas vezes o pH caiu abaixo de 4 em 24 horas. Mais de 50 episódios é considerado elevado na maioria dos protocolos.
Índice de correlação sintoma (ou DeMeester score): combina vários parâmetros em um escore composto. Valores acima de 14,72 são considerados anormais, embora o TEA isolado seja hoje a medida preferida.
Quando é indicada
A principal indicação é a investigação de refluxo com endoscopia normal: o paciente tem sintomas, a endoscopia não mostra lesão, e a dúvida é se existe refluxo patológico ou se os sintomas têm outra origem.
A segunda indicação clássica é o pré-operatório de cirurgia antirrefluxo (fundoplicatura). Antes de uma cirurgia irreversível que altera a anatomia, é importante ter certeza objetiva de que há refluxo real — não apenas sintomas que podem ter causa funcional.
Outras indicações incluem investigação de sintomas extraesofágicos atribuídos ao refluxo (tosse crônica, laringite, asma de difícil controle) e avaliação da eficácia do tratamento com IBP — nesse caso feita com o medicamento em uso, não após suspendê-lo.
Impedância-pH: quando o ácido não é o único suspeito
A pH-metria convencional detecta apenas refluxo ácido (pH < 4). Mas nem todo refluxo é ácido — conteúdo gástrico com pH entre 4 e 7 também pode subir e causar sintomas, especialmente em pacientes em uso de IBP que neutralizaram o ácido mas não o volume de refluxo.
A monitorização por impedância-pH combina o sensor de pH com eletrodos de impedância que detectam o movimento de qualquer bolus — líquido ou gasoso — independente do pH. Isso permite identificar refluxo não-ácido e refluxo de gás (aerofagia). É indicada principalmente quando os sintomas persistem mesmo com tratamento adequado e a pH-metria convencional é normal.
O que a pH-metria não responde
A pH-metria documenta refluxo ácido — não visualiza lesão, não diagnostica hérnia de hiato por si só, não avalia motilidade. Para saber se há esofagite, tumor ou Barrett, a endoscopia é necessária. Para avaliar a função motora e os esfíncteres, é a manometria esofágica. Na maioria dos casos de investigação completa de refluxo, os dois exames são pedidos em sequência.
O que dizem as evidências
A pH-metria ambulatorial de 24 horas tem evidência bem estabelecida como padrão de referência para o diagnóstico objetivo de refluxo gastroesofágico. O TEA como medida principal é consistente nas grandes séries, e sua correlação com sintomas e resposta ao tratamento é documentada. As limitações são conhecidas: não captura refluxo não-ácido, o cateter pode alterar o comportamento do paciente, e a zona cinzenta de TEA entre 4% e 6% exige julgamento clínico para interpretação. No conjunto, é um exame que responde uma pergunta bem delimitada — refluxo ácido está presente? — com boa precisão quando bem indicado e interpretado.
Perguntas frequentes
Por que a endoscopia normal não exclui refluxo?
Porque a maioria das pessoas com refluxo gastroesofágico sintomático não tem esofagite visível. O ácido que sobe pode causar sintomas — azia, tosse, rouquidão — sem deixar marcas na mucosa que a endoscopia consiga ver. A pH-metria mede o fenômeno em si (o ácido chegando ao esôfago), não apenas as suas consequências.
Qual a diferença entre o cateter nasal e a cápsula Bravo?
O cateter nasal é inserido pela narina e fica 24 horas, podendo incomodar e constrangendo o paciente em atividades sociais. A cápsula Bravo é um sensor sem fio fixado na parede do esôfago por endoscopia e transmite dados por radiofrequência por 48 a 96 horas sem nada no nariz. É mais confortável e permite um período de monitoramento mais longo, mas exige uma endoscopia prévia para o posicionamento.
Devo parar o omeprazol antes da pH-metria?
Depende do objetivo. Se a pergunta é 'este paciente tem refluxo patológico?', o IBP deve ser suspenso por 5 a 7 dias para que o exame meça o estado natural. Se a pergunta é 'o tratamento com IBP está sendo eficaz?', o exame é feito com o medicamento em uso. Interromper ou manter o IBP muda completamente o que o resultado significa.
O que é a monitorização por impedância-pH?
É uma versão mais completa da pH-metria que detecta não só ácido, mas também o movimento de líquido e gás no esôfago independente do pH. Isso permite identificar refluxo não-ácido — episódios em que conteúdo gástrico sobe sem ser ácido o suficiente para abaixar o pH abaixo de 4. É indicada principalmente quando os sintomas persistem mesmo com IBP e a pH-metria convencional é normal.