Exame

pH-metria Esofágica (Monitorização Ambulatorial do pH)

Padrão de referência para confirmar e quantificar a exposição ácida no esôfago. Fundamental para documentar refluxo gastroesofágico antes de cirurgia antirrefluxo e em casos com sintomas persistentes apesar do tratamento.

Evidência alta Revisado em 09 de julho de 2026
Resposta rápida

A pH-metria esofágica mede por 24 horas quanto ácido gástrico chega ao esôfago, e correlaciona esses episódios com os sintomas do paciente. É o exame certo quando a endoscopia é normal mas os sintomas de refluxo persistem, ou antes de uma cirurgia antirrefluxo. Pode ser feita com cateter nasal ou com uma cápsula sem fio fixada por endoscopia.

Ficha técnica
Objetivo
Medir a exposição do esôfago ao ácido gástrico por 24 horas, documentar correlação entre episódios de refluxo e sintomas, e diferenciar refluxo verdadeiro de queixas funcionais.
Preparo
Suspender inibidores de bomba de prótons por 5 a 7 dias antes do exame para teste diagnóstico (ou mantê-los para testar se o tratamento está sendo eficaz). Cateter nasal posicionado 5 cm acima do EEI por 24 horas ou cápsula Bravo fixada por endoscopia (48–96 horas, sem cateter).
Sensibilidade
Moderada a alta para refluxo ácido patológico; menos sensível para refluxo não-ácido (requer impedância-pH combinada).
Especificidade
Alta — um tempo de exposição ácida acima do limiar é diagnóstico.
Valores de referência
ParâmetroFaixa
Tempo de exposição ácida (TEA)Normal: < 4% do tempo total com pH < 4TEA > 6% é definitivamente patológico; 4–6% é zona cinzenta
Número de episódios de refluxoNormal: < 50 episódios de pH < 4 em 24 horasReferência depende do laboratório e do método
Limitações importantes
  • Detecta principalmente refluxo ácido — refluxo alcalino ou misto requer monitorização por impedância
  • O cateter nasal pode incomodar e alterar o comportamento do paciente durante o exame
  • Interpretação depende do limiar usado (pH < 4 é convenção)

Por que a pH-metria existe

A endoscopia mostra a mucosa do esôfago, mas não consegue capturar o que acontece ao longo do dia. Muitas pessoas com sintomas típicos de refluxo — azia, regurgitação, sensação de queimação — têm endoscopia completamente normal. Isso não significa que não têm refluxo; significa que o ácido pode subir sem causar esofagite visível. Para saber se o refluxo realmente acontece e com que frequência, é preciso medir o ácido diretamente no esôfago ao longo do tempo. É isso que a pH-metria faz.

Como funciona o exame

Um sensor de pH é posicionado 5 cm acima do esfíncter esofágico inferior — ponto de referência definido pela manometria prévia ou por cálculo de localização. O sensor registra continuamente o pH local. Quando o pH cai abaixo de 4, isso indica que ácido gástrico chegou àquela região — um episódio de refluxo ácido.

O registro acontece por 24 horas (com cateter nasal) ou 48 a 96 horas (com a cápsula Bravo sem fio). Durante esse período, o paciente segue sua rotina habitual, anota os sintomas em um diário e marca eventos relevantes como refeições e posição (deitado ou em pé). Essa anotação é fundamental para calcular a correlação sintoma-refluxo: se a azia aparece nos momentos em que o pH cai, a correlação é alta e o refluxo explica os sintomas. Se os sintomas surgem quando o pH está normal, a origem funcional ganha peso.

O que os números medem

Três variáveis principais são avaliadas:

Tempo de exposição ácida (TEA): a porcentagem do tempo total em que o pH esofágico ficou abaixo de 4. É a medida mais importante. Abaixo de 4% é normal; acima de 6% é definitivamente patológico; a faixa de 4–6% é ambígua e exige correlação clínica.

Número de episódios de refluxo: quantas vezes o pH caiu abaixo de 4 em 24 horas. Mais de 50 episódios é considerado elevado na maioria dos protocolos.

Índice de correlação sintoma (ou DeMeester score): combina vários parâmetros em um escore composto. Valores acima de 14,72 são considerados anormais, embora o TEA isolado seja hoje a medida preferida.

Quando é indicada

A principal indicação é a investigação de refluxo com endoscopia normal: o paciente tem sintomas, a endoscopia não mostra lesão, e a dúvida é se existe refluxo patológico ou se os sintomas têm outra origem.

A segunda indicação clássica é o pré-operatório de cirurgia antirrefluxo (fundoplicatura). Antes de uma cirurgia irreversível que altera a anatomia, é importante ter certeza objetiva de que há refluxo real — não apenas sintomas que podem ter causa funcional.

Outras indicações incluem investigação de sintomas extraesofágicos atribuídos ao refluxo (tosse crônica, laringite, asma de difícil controle) e avaliação da eficácia do tratamento com IBP — nesse caso feita com o medicamento em uso, não após suspendê-lo.

Impedância-pH: quando o ácido não é o único suspeito

A pH-metria convencional detecta apenas refluxo ácido (pH < 4). Mas nem todo refluxo é ácido — conteúdo gástrico com pH entre 4 e 7 também pode subir e causar sintomas, especialmente em pacientes em uso de IBP que neutralizaram o ácido mas não o volume de refluxo.

A monitorização por impedância-pH combina o sensor de pH com eletrodos de impedância que detectam o movimento de qualquer bolus — líquido ou gasoso — independente do pH. Isso permite identificar refluxo não-ácido e refluxo de gás (aerofagia). É indicada principalmente quando os sintomas persistem mesmo com tratamento adequado e a pH-metria convencional é normal.

O que a pH-metria não responde

A pH-metria documenta refluxo ácido — não visualiza lesão, não diagnostica hérnia de hiato por si só, não avalia motilidade. Para saber se há esofagite, tumor ou Barrett, a endoscopia é necessária. Para avaliar a função motora e os esfíncteres, é a manometria esofágica. Na maioria dos casos de investigação completa de refluxo, os dois exames são pedidos em sequência.

O que dizem as evidências

A pH-metria ambulatorial de 24 horas tem evidência bem estabelecida como padrão de referência para o diagnóstico objetivo de refluxo gastroesofágico. O TEA como medida principal é consistente nas grandes séries, e sua correlação com sintomas e resposta ao tratamento é documentada. As limitações são conhecidas: não captura refluxo não-ácido, o cateter pode alterar o comportamento do paciente, e a zona cinzenta de TEA entre 4% e 6% exige julgamento clínico para interpretação. No conjunto, é um exame que responde uma pergunta bem delimitada — refluxo ácido está presente? — com boa precisão quando bem indicado e interpretado.

Perguntas frequentes

Por que a endoscopia normal não exclui refluxo?

Porque a maioria das pessoas com refluxo gastroesofágico sintomático não tem esofagite visível. O ácido que sobe pode causar sintomas — azia, tosse, rouquidão — sem deixar marcas na mucosa que a endoscopia consiga ver. A pH-metria mede o fenômeno em si (o ácido chegando ao esôfago), não apenas as suas consequências.

Qual a diferença entre o cateter nasal e a cápsula Bravo?

O cateter nasal é inserido pela narina e fica 24 horas, podendo incomodar e constrangendo o paciente em atividades sociais. A cápsula Bravo é um sensor sem fio fixado na parede do esôfago por endoscopia e transmite dados por radiofrequência por 48 a 96 horas sem nada no nariz. É mais confortável e permite um período de monitoramento mais longo, mas exige uma endoscopia prévia para o posicionamento.

Devo parar o omeprazol antes da pH-metria?

Depende do objetivo. Se a pergunta é 'este paciente tem refluxo patológico?', o IBP deve ser suspenso por 5 a 7 dias para que o exame meça o estado natural. Se a pergunta é 'o tratamento com IBP está sendo eficaz?', o exame é feito com o medicamento em uso. Interromper ou manter o IBP muda completamente o que o resultado significa.

O que é a monitorização por impedância-pH?

É uma versão mais completa da pH-metria que detecta não só ácido, mas também o movimento de líquido e gás no esôfago independente do pH. Isso permite identificar refluxo não-ácido — episódios em que conteúdo gástrico sobe sem ser ácido o suficiente para abaixar o pH abaixo de 4. É indicada principalmente quando os sintomas persistem mesmo com IBP e a pH-metria convencional é normal.

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