Condição

Esofagite Eosinofílica

Doença imunomediada do esôfago caracterizada por inflamação eosinofílica. Manifesta-se principalmente com disfagia e impactação alimentar. Frequência crescente nas últimas décadas.

Evidência moderada CID K20.0 Revisado em 09 de julho de 2026
Resposta rápida

A esofagite eosinofílica (EoE) é uma inflamação crônica do esôfago provocada por uma reação imune, com acúmulo de eosinófilos na parede do órgão. Nos adultos, o sinal principal é a dificuldade para engolir e o alimento que entala; nas crianças, a recusa alimentar e o mau ganho de peso. O diagnóstico exige biópsia na endoscopia. O tratamento inclui inibidores de bomba de prótons, dietas de eliminação e corticoide tópico deglutido.

O que é

A esofagite eosinofílica é uma inflamação crônica do esôfago causada por uma reação do sistema imune. Sua marca é o acúmulo de eosinófilos — um tipo de célula de defesa ligada a processos alérgicos — no epitélio que reveste o esôfago, onde eles normalmente não deveriam estar. Essa infiltração mantém a parede do órgão inflamada, e com o tempo pode torná-la rígida e estreita, dificultando a passagem do alimento.

O gatilho, na maioria dos casos, são alimentos. Não se trata da alergia imediata que provoca urticária ou choque, mas de uma resposta imune mais lenta e localizada, em que determinados alimentos — leite de vaca, trigo, ovo e soja estão entre os mais frequentes — sustentam a inflamação de forma crônica. Fatores ambientais e alérgicos, como asma e rinite, costumam andar juntos.

Epidemiologia crescente

Até os anos 1990, a EoE era praticamente desconhecida. De lá para cá, passou a ser diagnosticada com frequência cada vez maior, a ponto de figurar hoje entre as principais causas de dificuldade para engolir e de impactação alimentar em adultos jovens. Parte desse aumento reflete melhor reconhecimento — hoje se biopsia o esôfago em situações em que antes não se biopsiava —, mas há também um aumento real que ainda não é totalmente compreendido, discutido no contexto das mesmas hipóteses que explicam a alta das doenças alérgicas em geral.

Como se manifesta

Nos adultos, o sintoma dominante é a disfagia para alimentos sólidos: a sensação de que a comida desce devagar, entala ou trava. Muitos convivem com adaptações silenciosas — mastigar demais, comer devagar, beber líquido a cada garfada, evitar carnes e pão — que mascaram o problema por anos. O episódio que costuma trazer o paciente ao médico é a impactação alimentar, quando um pedaço de comida fica preso e não desce, às vezes exigindo remoção por endoscopia de urgência. Dor no peito ou na parte alta do abdome e náusea também aparecem.

Nas crianças, o quadro é diferente e mais sutil: recusa alimentar, vômitos, dor abdominal, dificuldade de crescimento e ganho de peso insuficiente. Como elas nem sempre sabem descrever a dificuldade de engolir, o diagnóstico depende da atenção a esses sinais indiretos.

Diagnóstico

O diagnóstico não se faz só olhando o esôfago — se faz pela biópsia. Na endoscopia digestiva alta, o médico pode ver sinais sugestivos, como anéis, sulcos longitudinais, placas esbranquiçadas e estreitamentos, mas a confirmação exige coletar fragmentos e contar os eosinófilos ao microscópio. Estabeleceu-se um limiar mínimo de eosinófilos por campo de grande aumento para caracterizar a doença, e como a inflamação é irregular, colhem-se várias biópsias em diferentes alturas do esôfago. A manometria esofágica pode ser usada para avaliar a motilidade e afastar outras causas de disfagia, ainda que não seja o exame que define a EoE. É importante descartar outras condições, entre elas a doença celíaca, que pode coexistir.

Tratamento

Há três frentes bem estabelecidas, resumidas na ideia dos “três Ds”: drogas, dieta e dilatação. Os inibidores de bomba de prótons são a primeira linha para boa parte dos pacientes e reduzem a inflamação eosinofílica em uma fração relevante deles. As dietas de eliminação retiram os alimentos mais associados à doença e, quando bem conduzidas com reintrodução escalonada, permitem identificar o gatilho individual. O corticoide tópico deglutido — formulações pensadas para agir na mucosa do esôfago, e não por via sistêmica — controla a inflamação em muitos casos. Quando já existe estreitamento fibrótico, a dilatação endoscópica alivia a disfagia mecânica, sem tratar a inflamação de base.

O que dizem as evidências

O ponto que reorganizou a área foi o papel dos inibidores de bomba de prótons. Durante anos, a resposta a esses medicamentos era usada para excluir a EoE e atribuir o quadro ao refluxo — presumia-se que, se o IBP funcionava, o problema era ácido. Estudos posteriores mostraram que muitos pacientes com EoE genuína também respondem ao IBP, por um efeito anti-inflamatório independente do controle do ácido. Isso levou a área a abandonar aquela distinção rígida e a incorporar o IBP como tratamento de primeira linha, não como teste diagnóstico. É um bom exemplo de como uma suposição consolidada foi corrigida pela evidência.

O que permanece em aberto é como escolher, para cada paciente, entre IBP, dieta e corticoide, e como manter a remissão a longo prazo sem efeitos indesejados. Trata-se de uma doença crônica: a interrupção do tratamento costuma trazer a inflamação de volta, e o acompanhamento visa evitar que o esôfago desenvolva estreitamentos permanentes com os anos.

Perguntas frequentes

Esofagite eosinofílica é alergia alimentar?

É uma reação imune a alimentos, mas diferente da alergia clássica que causa urticária ou anafilaxia. Aqui a resposta é crônica e localizada no esôfago, desencadeada com frequência por alimentos como leite, trigo, ovo e soja. Por isso as dietas de eliminação funcionam em parte dos pacientes: retirar o gatilho reduz a inflamação. Testes de alergia convencionais nem sempre identificam o alimento responsável.

Tem cura?

É uma doença crônica, então o objetivo é controle, não cura definitiva. Com tratamento — IBP, dieta ou corticoide tópico — a inflamação regride e os sintomas melhoram, mas costumam retornar se o tratamento é interrompido. O acompanhamento visa manter o esôfago sem inflamação para evitar estreitamentos com o tempo.

Por que confundem com refluxo?

Os sintomas se sobrepõem, e muitos pacientes passam anos tratando refluxo sem melhora. A pista é a dificuldade para engolir sólidos e a impactação, mais típicas da EoE. Curiosamente, os inibidores de bomba de prótons ajudam em boa parte dos casos de EoE — não por causa do ácido, mas por um efeito anti-inflamatório —, o que por muito tempo dificultou separar as duas condições.

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