Diretriz

ESPGHAN Guidelines: diagnóstico de doença celíaca em crianças (2020)

Revisão das diretrizes pediátricas europeias para diagnóstico de doença celíaca. A principal novidade da versão de 2020 é a consolidação do critério sem biópsia: crianças com anti-tTG-IgA igual ou superior a dez vezes o limite superior do normal, EMA positivo e HLA-DQ2/DQ8 positivo podem ser diagnosticadas sem endoscopia — desde que os critérios sejam seguidos com rigor.

ESPGHAN2020 Revisado em 13 de julho de 2026
Ficha técnica
Organização
European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition
Ano
2020
Documento oficial
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Principais recomendações
  • A triagem deve ser feita com anti-tTG-IgA (anticorpo antitransglutaminase tecidual IgA) e dosagem simultânea de IgA sérica total, para identificar pacientes com deficiência de IgA que necessitam de testes alternativos (anti-DGP IgG ou anti-tTG IgG).

    ForteEvidência: Alto (GRADE)
  • Crianças com anti-tTG-IgA igual ou superior a dez vezes o limite superior do normal, anticorpo anti-endomísio (EMA) positivo em amostra separada e HLA-DQ2 ou DQ8 positivo podem ser diagnosticadas com doença celíaca sem biópsia duodenal, desde que apresentem sintomas compatíveis.

    ForteEvidência: Moderado (GRADE)
  • Quando os critérios para diagnóstico sem biópsia não são atendidos — anti-tTG-IgA entre 3 e 10 vezes o limite, EMA negativo ou HLA não realizado —, a biópsia duodenal permanece necessária para confirmar o diagnóstico.

    ForteEvidência: Alto (GRADE)
  • O teste HLA-DQ2/DQ8 tem alto valor preditivo negativo: sua ausência exclui a doença celíaca com grande confiança e pode ser usado para encerrar a investigação em grupos de risco assintomáticos.

    ForteEvidência: Alto (GRADE)
  • A dieta isenta de glúten estrita e mantida ao longo da vida é o único tratamento eficaz; não há medicamento aprovado para substituí-la.

    ForteEvidência: Alto (GRADE)
  • A resposta ao tratamento deve ser avaliada por dosagem de anti-tTG-IgA doze meses após o início da dieta sem glúten; queda significativa do título confirma a adesão e a resposta imunológica.

    ForteEvidência: Moderado (GRADE)

Sobre a diretriz

A ESPGHAN — Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica — publicou a versão de 2020 das suas diretrizes para doença celíaca como uma revisão e atualização do documento de 2012. O pano de fundo é uma tensão prática que qualquer pediatra conhece bem: confirmar a doença celíaca exigia, por décadas, biópsia duodenal por endoscopia digestiva alta — um procedimento invasivo, com custo e risco não negligenciáveis em crianças, especialmente nas mais novas. A diretriz de 2012 abriu caminho para diagnóstico sem biópsia em casos selecionados. A versão de 2020 refinou, confirmou e tornou esse caminho mais preciso.

O critério sem biópsia: o que muda e por quê

O coração do documento é a validação do chamado diagnóstico sorológico. A lógica é simples: quando uma criança tem anticorpos antitransglutaminase IgA (anti-tTG-IgA) em concentração igual ou superior a dez vezes o limite superior do normal, mais anti-endomísio (EMA) positivo em uma segunda amostra de sangue, mais genótipo HLA-DQ2 ou DQ8 positivo — e sintomas compatíveis —, a probabilidade de doença celíaca é tão alta que a biópsia se torna redundante na maioria dos casos. Estudos de validação multicêntricos demonstraram que esse conjunto de critérios tem especificidade próxima de 100% em crianças, o que justificou a recomendação forte.

A exigência de EMA em amostra separada — e não apenas o anti-tTG alto — é um detalhe técnico relevante: os dois testes detectam alvos semelhantes, mas por métodos distintos (ELISA e imunofluorescência), e a combinação reduz a chance de resultado falsamente positivo por erro laboratorial ou interferência.

Quando a biópsia ainda é necessária

A diretriz não aboliu a biópsia: ela a reservou para situações em que os critérios sorológicos não são plenamente atendidos. Anti-tTG entre 3 e 10 vezes o limite normal, EMA negativo, HLA ausente ou paciente assintomático são condições em que a confirmação histológica permanece o padrão adequado. Isso é importante porque evita tanto o subdiagnóstico quanto o diagnóstico equivocado — colocar uma criança em dieta sem glúten para o resto da vida sem confirmação adequada tem consequências nutricionais, sociais e psicológicas significativas.

O papel do HLA e da IgA total

A genotipagem HLA-DQ2/DQ8 tem utilidade particular em contextos de triagem. Como a ausência desses alelos torna a doença celíaca essencialmente improvável, o teste pode encerrar a investigação em familiares assintomáticos de primeiro grau ou em grupos de risco (como crianças com síndrome de Down ou diabetes tipo 1) que teriam sido submetidos a reavaliações serológicas repetidas indefinidamente.

A dosagem simultânea de IgA sérica total é outro ponto destacado: a deficiência de IgA — mais frequente em celíacos do que na população geral — produz resultados falso-negativos do anti-tTG-IgA. Em deficientes de IgA, o rastreamento passa a depender de anticorpos da classe IgG (anti-DGP IgG ou anti-tTG IgG).

Tratamento e seguimento

A diretriz é categórica: o único tratamento eficaz é a exclusão permanente do glúten da dieta. Não existe margem para consumo ocasional nem alternativa medicamentosa validada. O seguimento sorológico com anti-tTG-IgA 12 meses após o início da dieta serve para confirmar que houve queda dos anticorpos — o que sinaliza tanto adesão quanto resposta imunológica adequada. Títulos que não caem devem levantar suspeita de ingestão inadvertida de glúten antes de qualquer outra investigação.