Exame

Sorologia da doença celíaca

Exames de sangue que investigam a doença celíaca, com destaque para o anticorpo anti-transglutaminase IgA associado à dosagem de IgA total. São o primeiro passo do diagnóstico e só têm valor se a pessoa ainda estiver consumindo glúten.

Evidência alta Revisado em 26 de maio de 2026
Resposta rápida

A sorologia da doença celíaca mede anticorpos que aparecem quando o sistema imune reage ao glúten, principalmente o anti-transglutaminase IgA. É essencial dosar também a IgA total, porque quem tem deficiência dessa imunoglobulina pode ter um resultado falsamente negativo. Para o exame ser confiável, o glúten não pode ter sido retirado da dieta antes da coleta.

Ficha técnica
Objetivo
Rastrear e apoiar o diagnóstico da doença celíaca pela detecção de anticorpos associados à reação ao glúten, orientando quem deve seguir para a confirmação por biópsia intestinal.
Preparo
Não exige jejum. O ponto crítico é manter o consumo habitual de glúten nas semanas anteriores ao exame: retirar o glúten antes pode negativar os anticorpos e mascarar a doença. Não se deve iniciar dieta sem glúten por conta própria antes de concluir a investigação.
Sensibilidade
Alta para o anti-transglutaminase IgA em pessoas com IgA normal e em dieta contendo glúten.
Especificidade
Alta, sobretudo com títulos elevados; ainda assim, o diagnóstico geralmente é confirmado por biópsia.
Valores de referência
ParâmetroFaixa
Anti-transglutaminase IgA negativo, com IgA total normalAbaixo do limite do laboratórioDoença celíaca pouco provável, desde que em dieta com glúten
Anti-transglutaminase IgA positivoAcima do limite do laboratórioSugere doença celíaca; encaminhar para confirmação por biópsia
IgA total baixa (deficiência de IgA)Abaixo do valor de referênciaUsar testes baseados em IgG (ex.: anti-transglutaminase IgG) para não perder o diagnóstico
Limitações importantes
  • Perde validade se o glúten já foi retirado da dieta (falso-negativo)
  • A deficiência de IgA gera falso-negativo se a IgA total não for dosada
  • Um resultado positivo geralmente exige confirmação por biópsia intestinal
  • Títulos baixos ou limítrofes podem ser inespecíficos e exigir avaliação adicional
  • Não avalia a sensibilidade ao glúten não celíaca, que não altera esses anticorpos

Para que serve a sorologia da doença celíaca

A doença celíaca é uma reação imune ao glúten, a proteína presente no trigo, no centeio e na cevada. Nas pessoas predispostas, ingerir glúten desencadeia uma resposta que agride a mucosa do intestino delgado e prejudica a absorção de nutrientes. A sorologia é o primeiro passo para investigar essa reação: são exames de sangue que detectam os anticorpos produzidos quando o sistema imune reage ao glúten.

O anticorpo mais usado é o anti-transglutaminase IgA (anti-tTG IgA). Ele tem alta sensibilidade e boa especificidade, o que o torna o teste inicial de escolha na maioria das situações. Sua função é dupla: rastrear quem tem sintomas ou risco aumentado e selecionar quem deve seguir para a confirmação diagnóstica.

Anti-transglutaminase IgA e IgA total: por que os dois

Há um detalhe que faz toda a diferença e costuma ser esquecido: o anti-transglutaminase mais comum é do tipo IgA, e uma parcela da população tem deficiência dessa imunoglobulina. Nessas pessoas, o anticorpo pode dar negativo mesmo havendo doença celíaca — um falso-negativo que leva a perder o diagnóstico.

Por isso, a boa prática é dosar, junto com o anti-transglutaminase, a IgA total. Se a IgA total estiver normal, o resultado do anticorpo é confiável. Se estiver baixa, indicando deficiência de IgA, o médico recorre a testes baseados em IgG (como o anti-transglutaminase IgG) para não deixar a doença passar. Solicitar o anti-tTG IgA sem a IgA total é uma armadilha clássica da investigação.

Não retire o glúten antes do exame

Este é o ponto mais importante de toda a investigação da doença celíaca. Os anticorpos só existem enquanto o sistema imune está reagindo ao glúten. Se a pessoa começa uma dieta sem glúten por conta própria antes de fazer os exames, os anticorpos tendem a cair e podem desaparecer — e a sorologia dá negativo mesmo em quem tem a doença.

O resultado prático é frustrante e comum: alguém melhora ao cortar o glúten, decide investigar depois e recebe exames normais, ficando sem diagnóstico e sem saber se realmente é celíaco. Para evitar isso, a regra é clara: mantenha o consumo habitual de glúten até que a sorologia e, se indicada, a biópsia estejam concluídas. Só depois de fechada a investigação faz sentido discutir a retirada do glúten.

Como se preparar

O preparo é simples do ponto de vista físico — não exige jejum. A parte difícil é comportamental: continuar comendo glúten normalmente nas semanas anteriores, mesmo que ele cause sintomas. Interromper por conta própria compromete todo o exame.

O que dizem as evidências

A sorologia da doença celíaca é bem validada e ocupa lugar central no diagnóstico. O anti-transglutaminase IgA tem alta sensibilidade e boa especificidade em quem está consumindo glúten e não tem deficiência de IgA, e títulos elevados aumentam bastante a probabilidade da doença. Combinar o anticorpo com a IgA total corrige a principal fonte de falso-negativo e é hoje considerado o passo mínimo de uma investigação bem feita.

As limitações, porém, definem como o exame deve ser usado. A mais séria é a dependência do glúten na dieta: sem exposição, os anticorpos negativam, e o exame perde o sentido. A deficiência de IgA, se não for pesquisada, esconde a doença. E um resultado positivo, embora forte, em geral não fecha o diagnóstico sozinho — a confirmação costuma vir da biópsia intestinal, que mostra a atrofia das vilosidades. Essa confirmação importa porque o diagnóstico implica uma dieta sem glúten para a vida toda.

Vale ainda um esclarecimento frequente: a sorologia investiga a doença celíaca, não a sensibilidade ao glúten não celíaca. Quem tem essa sensibilidade — sintomas ao consumir glúten sem a reação imune característica — costuma ter sorologia normal. São condições diferentes, e o exame não substitui a avaliação da doença celíaca como um todo, que junta história clínica, sorologia e biópsia. Lida dentro dessas regras, a sorologia é uma ferramenta precisa; usada fora delas — sobretudo depois de retirar o glúten —, engana mais do que ajuda.

Perguntas frequentes

Posso parar o glúten antes de fazer a sorologia?

Não. Esse é o erro mais comum e mais prejudicial. Os anticorpos da doença celíaca só aparecem enquanto o sistema imune está reagindo ao glúten. Se a pessoa retira o glúten antes do exame, os anticorpos tendem a desaparecer e o resultado pode dar negativo mesmo em quem tem a doença. Para investigar corretamente, é preciso manter o consumo habitual de glúten até concluir a sorologia e, se indicada, a biópsia.

Por que dosar a IgA total junto com o anti-transglutaminase?

Porque o anti-transglutaminase mais usado é do tipo IgA, e algumas pessoas têm deficiência dessa imunoglobulina. Nelas, o anticorpo pode dar negativo mesmo havendo doença celíaca — um falso-negativo perigoso. Dosar a IgA total identifica essa deficiência; quando ela existe, o médico recorre a testes baseados em IgG para não perder o diagnóstico.

Sorologia positiva já fecha o diagnóstico de celíaca?

Em geral, não sozinha. Um anti-transglutaminase positivo é um forte indício e, quanto mais alto o título, maior a probabilidade. Ainda assim, o diagnóstico costuma ser confirmado com biópsia do intestino, que mostra a atrofia característica das vilosidades. A confirmação importa porque a doença celíaca implica dieta sem glúten por toda a vida, e vale a pena firmar bem o diagnóstico antes.

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