Tratamento

Domperidona

Procinético antagonista da dopamina, usado na dispepsia funcional e no esvaziamento gástrico lento. Melhora os sintomas mas tem perfil de segurança cardiovascular que limita seu uso crônico.

Evidência baixa Medicamento Revisado em 09 de julho de 2026
Resposta rápida

A domperidona acelera o esvaziamento do estômago e ajuda em sintomas como plenitude e enjoo, sendo usada na dispepsia funcional e na gastroparesia. O problema é a segurança: ela pode prolongar o intervalo QT no coração e elevar a prolactina, o que restringe o uso a períodos curtos e às menores doses eficazes.

Ficha técnica
Princípio ativo
Domperidona
Classe
Antagonistas dopaminérgicos / procinéticos
Mecanismo
Bloqueia receptores D2 de dopamina no trato digestivo superior, acelerando o esvaziamento gástrico e o trânsito gastroduodenal.
No Brasil
Disponível como Motilium e genéricos. A ANVISA restringe prescrição para curtos períodos.
Indicações
  • Dispepsia funcional com predominância de saciedade precoce e plenitude pós-prandial
  • Gastroparesia (retardo do esvaziamento gástrico)
Contraindicações
  • Prolongamento de QT ou arritmias ventriculares
  • Uso de inibidores do CYP3A4 (antifúngicos azólicos, macrolídeos — risco de prolongar QT)
  • Tumores que respondem à prolactina
Efeitos adversos
  • Hiperprolactinemia (galactorreia, amenorreia)
  • Prolongamento do intervalo QT (risco cardiovascular com doses altas ou uso prolongado)
  • Sonolência (cruzamento mínimo da barreira hematoencefálica)

Como funciona

A domperidona é um procinético — um medicamento que “empurra” o conteúdo do tubo digestivo para frente. Ela faz isso bloqueando os receptores D2 de dopamina no trato digestivo superior. A dopamina, nesse contexto, atua como um freio da motilidade; ao bloqueá-la, a domperidona solta esse freio e acelera o esvaziamento do estômago e o trânsito do duodeno.

O resultado prático é um estômago que se esvazia mais rápido, o que ajuda quem sente que a comida “empaca” e provoca plenitude, enjoo e saciedade precoce. Um detalhe importante do seu mecanismo é que a domperidona quase não atravessa a barreira hematoencefálica, então costuma causar menos efeitos no sistema nervoso central do que outros medicamentos da mesma família.

Indicações clínicas

O uso mais comum é na dispepsia funcional, sobretudo no subtipo em que predominam a saciedade precoce e a sensação de plenitude após as refeições — o chamado desconforto pós-prandial. A lógica é que, esvaziando o estômago mais depressa, esses sintomas diminuem.

A outra indicação é a gastroparesia, condição em que o esvaziamento gástrico está de fato lento, muitas vezes por diabetes ou outras causas. Aqui o procinético ataca o mecanismo diretamente, embora o benefício varie bastante de pessoa para pessoa.

O ponto central: segurança cardiovascular

É impossível falar de domperidona sem falar do coração. O medicamento pode prolongar o intervalo QT, uma alteração elétrica que, em situações desfavoráveis, predispõe a arritmias graves. Esse risco aumenta com doses altas, uso prolongado, em idosos e quando a domperidona é combinada com medicamentos que também prolongam o QT ou que bloqueiam sua metabolização — como antifúngicos azólicos e certos antibióticos macrolídeos.

Some-se a isso a elevação da prolactina, que pode causar produção indevida de leite (galactorreia) e alterações menstruais. É esse conjunto de riscos que explica por que agências como a ANVISA restringem a prescrição a períodos curtos e às menores doses eficazes. A domperidona não é um remédio para tomar despreocupadamente por meses a fio.

Vale a comparação com a metoclopramida, o outro procinético clássico. Ela cruza mais a barreira cerebral e por isso causa mais efeitos neurológicos, como agitação e movimentos involuntários. A domperidona evita boa parte desses efeitos centrais, mas divide com a metoclopramida a mesma preocupação cardíaca — trocar uma pela outra não elimina o problema do QT.

O que dizem as evidências

A evidência de eficácia da domperidona na dispepsia é modesta e de qualidade limitada. Revisões sistemáticas, incluindo análises da Cochrane, sugerem que os procinéticos podem trazer algum alívio sintomático na dispepsia funcional, mas os ensaios são frequentemente pequenos, antigos e metodologicamente frágeis, o que reduz a confiança nesses achados. Traduzindo: o benefício existe, provavelmente é real, mas é modesto e cercado de incerteza.

O balanço, portanto, é delicado. A domperidona faz sentido quando os sintomas de esvaziamento lento incomodam de verdade e o benefício esperado justifica o risco — usada por tempo limitado, na menor dose, com atenção às interações e ao perfil cardíaco do paciente. Fora desse contexto, os riscos tendem a pesar mais do que o ganho.

Perguntas frequentes

Posso tomar domperidona todos os dias por tempo indefinido?

Não é o recomendado. Justamente pelo risco de prolongar o intervalo QT no coração e de elevar a prolactina, a orientação é usar a domperidona pelo menor tempo e na menor dose que resolvam o sintoma. A ANVISA e outras agências restringem o uso a períodos curtos. Uso crônico só sob avaliação médica cuidadosa.

Qual a diferença entre domperidona e metoclopramida?

As duas são procinéticos que bloqueiam a dopamina e aceleram o esvaziamento gástrico. A domperidona atravessa muito pouco a barreira que protege o cérebro, então causa menos efeitos neurológicos, como agitação e movimentos involuntários, que são mais comuns com a metoclopramida. Em compensação, ambas compartilham a preocupação cardíaca com o intervalo QT.

A domperidona serve para prisão de ventre?

Ela age sobretudo na parte alta do tubo digestivo, acelerando o esvaziamento do estômago, e não é um laxante nem um tratamento de primeira escolha para a constipação. O efeito sobre o trânsito do intestino grosso é limitado. Para constipação, há abordagens mais adequadas.

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