Domperidona
Procinético antagonista da dopamina, usado na dispepsia funcional e no esvaziamento gástrico lento. Melhora os sintomas mas tem perfil de segurança cardiovascular que limita seu uso crônico.
A domperidona acelera o esvaziamento do estômago e ajuda em sintomas como plenitude e enjoo, sendo usada na dispepsia funcional e na gastroparesia. O problema é a segurança: ela pode prolongar o intervalo QT no coração e elevar a prolactina, o que restringe o uso a períodos curtos e às menores doses eficazes.
- Princípio ativo
- Domperidona
- Classe
- Antagonistas dopaminérgicos / procinéticos
- Mecanismo
- Bloqueia receptores D2 de dopamina no trato digestivo superior, acelerando o esvaziamento gástrico e o trânsito gastroduodenal.
- No Brasil
- Disponível como Motilium e genéricos. A ANVISA restringe prescrição para curtos períodos.
- Dispepsia funcional com predominância de saciedade precoce e plenitude pós-prandial
- Gastroparesia (retardo do esvaziamento gástrico)
- Prolongamento de QT ou arritmias ventriculares
- Uso de inibidores do CYP3A4 (antifúngicos azólicos, macrolídeos — risco de prolongar QT)
- Tumores que respondem à prolactina
- Hiperprolactinemia (galactorreia, amenorreia)
- Prolongamento do intervalo QT (risco cardiovascular com doses altas ou uso prolongado)
- Sonolência (cruzamento mínimo da barreira hematoencefálica)
Como funciona
A domperidona é um procinético — um medicamento que “empurra” o conteúdo do tubo digestivo para frente. Ela faz isso bloqueando os receptores D2 de dopamina no trato digestivo superior. A dopamina, nesse contexto, atua como um freio da motilidade; ao bloqueá-la, a domperidona solta esse freio e acelera o esvaziamento do estômago e o trânsito do duodeno.
O resultado prático é um estômago que se esvazia mais rápido, o que ajuda quem sente que a comida “empaca” e provoca plenitude, enjoo e saciedade precoce. Um detalhe importante do seu mecanismo é que a domperidona quase não atravessa a barreira hematoencefálica, então costuma causar menos efeitos no sistema nervoso central do que outros medicamentos da mesma família.
Indicações clínicas
O uso mais comum é na dispepsia funcional, sobretudo no subtipo em que predominam a saciedade precoce e a sensação de plenitude após as refeições — o chamado desconforto pós-prandial. A lógica é que, esvaziando o estômago mais depressa, esses sintomas diminuem.
A outra indicação é a gastroparesia, condição em que o esvaziamento gástrico está de fato lento, muitas vezes por diabetes ou outras causas. Aqui o procinético ataca o mecanismo diretamente, embora o benefício varie bastante de pessoa para pessoa.
O ponto central: segurança cardiovascular
É impossível falar de domperidona sem falar do coração. O medicamento pode prolongar o intervalo QT, uma alteração elétrica que, em situações desfavoráveis, predispõe a arritmias graves. Esse risco aumenta com doses altas, uso prolongado, em idosos e quando a domperidona é combinada com medicamentos que também prolongam o QT ou que bloqueiam sua metabolização — como antifúngicos azólicos e certos antibióticos macrolídeos.
Some-se a isso a elevação da prolactina, que pode causar produção indevida de leite (galactorreia) e alterações menstruais. É esse conjunto de riscos que explica por que agências como a ANVISA restringem a prescrição a períodos curtos e às menores doses eficazes. A domperidona não é um remédio para tomar despreocupadamente por meses a fio.
Vale a comparação com a metoclopramida, o outro procinético clássico. Ela cruza mais a barreira cerebral e por isso causa mais efeitos neurológicos, como agitação e movimentos involuntários. A domperidona evita boa parte desses efeitos centrais, mas divide com a metoclopramida a mesma preocupação cardíaca — trocar uma pela outra não elimina o problema do QT.
O que dizem as evidências
A evidência de eficácia da domperidona na dispepsia é modesta e de qualidade limitada. Revisões sistemáticas, incluindo análises da Cochrane, sugerem que os procinéticos podem trazer algum alívio sintomático na dispepsia funcional, mas os ensaios são frequentemente pequenos, antigos e metodologicamente frágeis, o que reduz a confiança nesses achados. Traduzindo: o benefício existe, provavelmente é real, mas é modesto e cercado de incerteza.
O balanço, portanto, é delicado. A domperidona faz sentido quando os sintomas de esvaziamento lento incomodam de verdade e o benefício esperado justifica o risco — usada por tempo limitado, na menor dose, com atenção às interações e ao perfil cardíaco do paciente. Fora desse contexto, os riscos tendem a pesar mais do que o ganho.
Perguntas frequentes
Posso tomar domperidona todos os dias por tempo indefinido?
Não é o recomendado. Justamente pelo risco de prolongar o intervalo QT no coração e de elevar a prolactina, a orientação é usar a domperidona pelo menor tempo e na menor dose que resolvam o sintoma. A ANVISA e outras agências restringem o uso a períodos curtos. Uso crônico só sob avaliação médica cuidadosa.
Qual a diferença entre domperidona e metoclopramida?
As duas são procinéticos que bloqueiam a dopamina e aceleram o esvaziamento gástrico. A domperidona atravessa muito pouco a barreira que protege o cérebro, então causa menos efeitos neurológicos, como agitação e movimentos involuntários, que são mais comuns com a metoclopramida. Em compensação, ambas compartilham a preocupação cardíaca com o intervalo QT.
A domperidona serve para prisão de ventre?
Ela age sobretudo na parte alta do tubo digestivo, acelerando o esvaziamento do estômago, e não é um laxante nem um tratamento de primeira escolha para a constipação. O efeito sobre o trânsito do intestino grosso é limitado. Para constipação, há abordagens mais adequadas.