LPS
O LPS é a principal endotoxina bacteriana conhecida. Em quantidades fisiológicas, o organismo o tolera graças à barreira intestinal. Quando escapa para a circulação, ativa uma cascata inflamatória com consequências sistêmicas.
Lipopolissacarídeo — componente da membrana externa de bactérias gram-negativas que ativa fortemente o sistema imune ao ser reconhecido pelo receptor TLR4.
O lipopolissacarídeo, ou LPS, é uma molécula complexa que forma parte da membrana externa de todas as bactérias gram-negativas. Estruturalmente, é composto por três regiões: o lipídeo A (a porção que ancora a molécula à membrana bacteriana e é a principal responsável pela ativação imune), um polissacarídeo central e o antígeno O (uma cadeia de açúcares variável entre cepas bacterianas, usada para classificação sorológica).
O sistema imune do hospedeiro detecta o LPS com alta sensibilidade. O receptor principal é o TLR4, que trabalha em conjunto com duas proteínas auxiliares: a MD-2, que facilita o reconhecimento do lipídeo A, e a CD14, que captura o LPS circulante e o apresenta ao complexo TLR4/MD-2. Quando esse complexo é ativado, dispara sinalização intracelular que leva à transcrição de genes pró-inflamatórios — uma revisão sobre endotoxemia metabólica publicada em Frontiers in Immunology descreve o reconhecimento do LPS pelo TLR4 e a consequente liberação de citocinas como IL-6, IL-1β e TNF-α.
O paradoxo imunológico do intestino é notável. O cólon abriga centenas de bilhões de bactérias gram-negativas — uma quantidade enorme de LPS em contato constante com a mucosa. Ainda assim, em condições saudáveis, não há resposta inflamatória contínua. Isso se deve a múltiplos mecanismos: a barreira intestinal confinando o LPS ao lúmen; os receptores Toll-like posicionados na superfície basolateral do epitélio, não na luminal; e a tolerância imune calibrada pela exposição prévia à microbiota.
Quando a barreira é comprometida, o LPS acessa a circulação. Ao entrar na corrente sanguínea, a porção lipídeo A se associa ao envoltório de fosfolipídios das lipoproteínas plasmáticas, segundo a mesma revisão. A composição da dieta influencia esse quadro: dietas ricas em gordura saturada contribuem para a endotoxemia metabólica, enquanto padrões com gorduras insaturadas, como a dieta mediterrânea, a reduzem. O papel específico das fibras fermentáveis nesse mecanismo é plausível e vem sendo estudado por meio da modulação da microbiota, mas está menos estabelecido do que o efeito do tipo de gordura — vale tratá-lo como hipótese em investigação, não como fato assentado.
Perguntas frequentes
O LPS pode causar choque séptico?
Sim, em concentrações altas, como nas bacteremias por gram-negativas. O choque séptico é a resposta inflamatória sistêmica exacerbada ao LPS. Mas isso é muito diferente da endotoxemia metabólica de baixo grau — nesta, as concentrações são muito menores e o efeito é uma ativação inflamatória discreta e crônica, não uma crise aguda.