Estudo

Rifaximina para SII sem constipação (TARGET 1 e 2)

Dois ensaios clínicos gêmeos, randomizados e controlados por placebo, testaram um ciclo curto de rifaximina em pessoas com síndrome do intestino irritável sem constipação. O antibiótico aliviou os sintomas globais e a distensão em uma parcela dos pacientes, com benefício que persistiu por semanas após o fim do tratamento.

Evidência alta Ensaio clínico randomizado2011 Revisado em 08 de maio de 2026
Ficha técnica
Tipo de estudo
Ensaio clínico randomizado
Autores
Pimentel M; Lembo A; Chey WD; et al.
Publicação
New England Journal of Medicine, 2011
Participantes
1.260 pacientes
DOI
10.1056/NEJMoa1004409
PubMed
21208108
Conclusões
Um ciclo de 14 dias de rifaximina produziu alívio dos sintomas globais e da distensão superior ao placebo em adultos com SII sem constipação, com efeito mantido por algumas semanas.
Limitações
Benefício modesto em termos absolutos, população definida por sintomas (sem confirmação de SIBO por teste) e seguimento relativamente curto para uma condição crônica e recorrente.

Contexto

A síndrome do intestino irritável não tem, na maioria dos casos, causa única identificável, e por muito tempo faltaram tratamentos com boa base de evidência para os sintomas de distensão, gases e diarreia. A hipótese de que a microbiota participa do quadro — e de que reduzir a carga bacteriana aliviaria sintomas — abriu espaço para testar antibióticos. A rifaximina interessa porque é minimamente absorvida, o que lhe dá bom perfil de segurança para uso digestivo.

Método

O trabalho reuniu dois ensaios idênticos e independentes, TARGET 1 e TARGET 2, ambos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. Ao todo participaram 1.260 adultos com SII sem constipação. Os pacientes receberam rifaximina 550 mg três vezes ao dia, ou placebo, por 14 dias, e foram acompanhados por dez semanas sem tratamento. O desfecho primário foi a proporção de pacientes com alívio adequado dos sintomas globais durante pelo menos duas das quatro primeiras semanas após o tratamento. Um desfecho secundário avaliou o alívio da distensão abdominal.

Resultados

Mais pacientes tratados com rifaximina do que com placebo relataram alívio adequado dos sintomas globais nas semanas seguintes ao ciclo (cerca de 41% contra 32% nos dados combinados). O benefício sobre a distensão seguiu a mesma direção e também foi estatisticamente significativo. Importante: o efeito não desapareceu no instante em que o antibiótico foi suspenso — parte dos pacientes manteve o alívio ao longo do período de seguimento, o que sugere um efeito que vai além da simples presença do fármaco. Os eventos adversos foram semelhantes aos do placebo, coerente com a baixa absorção da rifaximina.

Limitações

O benefício, embora real e reprodutível entre os dois ensaios, é modesto em números absolutos: a diferença sobre o placebo gira em torno de dez pontos percentuais, o que significa que a maioria dos pacientes não atinge o alívio buscado. A população foi definida por critérios de sintomas, sem confirmação de SIBO por teste respiratório — ou seja, o estudo não prova que o efeito depende de tratar supercrescimento bacteriano. O seguimento de dez semanas é curto para uma condição crônica e recorrente, e os próprios estudos não responderam quantas vezes o tratamento pode ser repetido com segurança e eficácia.

Impacto clínico

Os TARGET 1 e 2 foram decisivos para a aprovação da rifaximina na SII sem constipação e continuam entre as evidências mais citadas a favor do antibiótico nesse cenário. Na prática, sustentam a rifaximina como opção para pacientes selecionados com distensão e diarreia, deixando claro que o alívio é parcial. Como a população tinha SII definida por sintomas, extrapolar para “SIBO comprovado por teste” exige cautela — ressalva que a metanálise de Shah et al. (2020) reforça.

Referências

  1. Acessar publicação original. New England Journal of Medicine