Diretriz

Critérios de Roma IV (2016)

Publicados pela Fundação Roma em 2016, os critérios de Roma IV são o padrão internacional para definir e classificar os distúrbios da interação intestino-cérebro — antes chamados de distúrbios gastrointestinais funcionais. Fornecem definições baseadas em sintomas para condições como a SII, a dispepsia funcional e a constipação funcional, orientando diagnóstico e pesquisa.

Consenso de especialistas Roma2016 Revisado em 28 de maio de 2026
Ficha técnica
Organização
Fundação Roma (Rome Foundation)
Ano
2016
Documento oficial
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Principais recomendações
  • Diagnosticar os distúrbios da interação intestino-cérebro por critérios baseados em sintomas, e não por exclusão indefinida de outras doenças.

    ForteEvidência: Consenso de especialistas
  • Definir a SII pela presença de dor abdominal recorrente relacionada à evacuação ou a mudanças na frequência ou na forma das fezes, em período mínimo estabelecido.

    ForteEvidência: Consenso de especialistas
  • Classificar a dispepsia funcional em subtipos (síndrome do desconforto pós-prandial e síndrome da dor epigástrica), com critérios sintomáticos próprios.

    ForteEvidência: Consenso de especialistas
  • Adotar a expressão 'distúrbios da interação intestino-cérebro' para enfatizar o papel do eixo intestino-cérebro, em vez do termo 'funcional'.

    Boa práticaEvidência: Consenso de especialistas

Sobre os critérios

Os critérios de Roma IV, publicados pela Fundação Roma em 2016, são o padrão internacional para definir e classificar um conjunto de condições digestivas em que não se encontram lesões estruturais que expliquem os sintomas. Historicamente chamados de “distúrbios gastrointestinais funcionais”, eles foram rebatizados em Roma IV como distúrbios da interação intestino-cérebro — uma mudança de nome com peso conceitual, que reconhece o papel do eixo intestino-cérebro na origem dos sintomas.

Diferente de uma diretriz de tratamento, Roma IV é antes de tudo um sistema de definições. Ele não diz como tratar; diz o que cada condição é, com base em quais sintomas, por quanto tempo e com que características. Essa padronização tem duas funções: dar ao clínico um vocabulário diagnóstico comum e permitir que a pesquisa compare populações realmente equivalentes entre estudos.

O que abrangem

Roma IV cobre dezenas de entidades, distribuídas por região do trato digestivo. Entre as mais relevantes para o intestino:

Síndrome do intestino irritável. A SII é definida por dor abdominal recorrente relacionada à evacuação ou a mudanças na frequência ou na forma das fezes, presente por um período mínimo estabelecido. Roma IV classifica a SII em subtipos conforme o padrão de fezes predominante — com diarreia, com constipação, misto ou não classificado.

Dispepsia funcional. A dispepsia funcional reúne sintomas do andar superior do abdome, como plenitude após comer, saciedade precoce, dor ou queimação epigástrica. Roma IV a divide em subtipos — a síndrome do desconforto pós-prandial e a síndrome da dor epigástrica —, cada um com critérios próprios.

Constipação funcional. A constipação funcional é definida por critérios sintomáticos como esforço evacuatório, fezes endurecidas, sensação de evacuação incompleta e frequência reduzida, na ausência de causa estrutural que a explique.

Uma mudança importante de abordagem

O ponto mais característico de Roma IV é o diagnóstico positivo por sintomas, em oposição ao diagnóstico por exclusão indefinida. A lógica antiga tratava essas condições como um diagnóstico de descarte — o que sobrava depois de excluir todo o resto. Roma IV inverte isso: propõe que, diante de um padrão sintomático característico e sem sinais de alarme, o diagnóstico possa ser firmado de forma afirmativa, poupando o paciente de investigações intermináveis.

A mudança de nome reforça esse espírito. Falar em “interação intestino-cérebro”, em vez de “funcional”, desloca o foco de uma ideia vaga de “sem causa orgânica” para um mecanismo concreto — a comunicação alterada entre intestino e sistema nervoso, envolvendo motilidade, sensibilidade visceral e processamento no cérebro.

Força e limites

Por natureza, Roma IV é um consenso de especialistas. Seus critérios não derivam de um experimento, e sim do acordo de um comitê internacional revisando a melhor evidência e a experiência clínica disponíveis. Isso é ao mesmo tempo sua força — oferece um padrão comum, revisado periodicamente — e seu limite: pontos de corte de tempo e frequência têm certo grau de arbitrariedade, e os critérios podem ser ajustados em versões futuras. São ferramentas de padronização, não verdades fixas.

O que muda na prática

Na prática, Roma IV dá a médicos e pesquisadores uma linguagem comum e um caminho para o diagnóstico afirmativo. Para o paciente, ajuda a transformar um quadro antes descrito por negação — “os exames não mostraram nada” — em um diagnóstico com nome, critérios e legitimidade. Entender que a SII, a dispepsia funcional e a constipação funcional são condições reais e definidas, e não um “não se sabe o que é”, já muda a forma de encarar o tratamento e as expectativas.